Caboclos buscam afirmação

Para efeito de estatísticas o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística desconsidera a existência dos brasileiros frutos do cruzamento do índio com os brancos portugueses. Decisão tem gerado preotestos

ANA CAROLINA BARBOSA

Especial para EM TEMPO

diadia@emtempo.com.br

Integrantes do Movimento Pardo Mestiço Brasileiro e da Associação dos Caboclos e Ribeirinhos da Amazônia estão em busca do reconhecimento pleno da raça cabocla. Para isso, pedirão, por meio de um abaixo-assinado que será entregue às autoridades municipais, estaduais e federais, a oficialização da denominação caboclo nos registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os membros dos movimentos afirmam que não há políticas públicas voltadas a esta categoria - que surgiu junto com o descobrimento do Brasil, com a mistura das raças branco e indígena. Os primeiros dois sensos realizados pelo IBGE, nos anos de 1872 e 1890, foram os únicos a apresentar estatística para a raça cabocla. Sendo assim, os grupos organizados a favor da causa consideram esse fator injusto, tendo em vista que o caboclo foi o primeiro mestiço da história do Brasil.

Cerca de 42,6% da população brasileira é formada de pardos. Quando se trata da Região Norte, este número sobe para 69,2%, conforme dados do senso 2006 IBGE/Indicadores 2007. No Amazonas, a categoria é unanimidade, totalizando 74,3% da população. Contudo, não se sabe ao certo o quanto destes percentuais está relacionado ao gênero caboclo (que é a mistura do índio com o branco). As raças contidas nas estatísticas são apenas amarelo, pardo, branco, preto e indígena, sendo que o caboclo é uma raça não oficializada.

__________

No dicionário, a palavra caboclo está relacionada a mestiço. No entanto, o IBGE não entende como tal e sim como pardo

__________

 

 

No dicionário, a palavra caboclo está relacionada a mestiço. No entanto, o IBGE não entende como tal e sim como pardo, o qual seria, ao pé da letra, a mistura de diferentes raças.

Por conta desse problema, Integrantes do Movimento Pardo Mestiço Brasileiro e da Associação dos Caboclos e Ribeirinhos da Amazônia lutam para incorporar novamente a denominação às tabelas estatísticas, e pretendem cobrar, a partir daí, políticas públicas voltadas a esta categoria - por parte do poder público - no âmbito das três esferas (Federal, Estadual e Municipal).

Os movimentos que apóiam a raça cabocla afirmam que ela foi a primeira mestiçagem no país, sendo formada a partir do português (branco) com índios, após a descoberta do Brasil.

Mestiçagem no Brasil

Conforme estudo realizado pelo professor Simon Schwartzman, em 1998, titulado "Cor, Raça, Discriminação e Identidade Social no Brasil", o país experimentou um alto grau de mestiçagem e convivência entre pessoas de características raciais e culturais distintas.

Porém, nunca houve uma legislação específica que tratasse as pessoas de forma diferente, mediante sua raça ou cor. Ainda de acordo com a pesquisa, para o mesmo nível de educação, na mesma profissão e na mesma região geográfica, o negro ou pardo está quase sempre em posição inferior ao branco.

O supervisor de disseminação do IBGE/AM, Adjalma Nogueira, informou que o instituto não trabalha considerando a variedade de cores e raças que existem no país, e frisou que a denominação "caboclo" está inclusa na categoria dos pardos. De acordo com ele, é importante destacar que a opção pelas cinco cores e raças foi feita por meio de diversos fatores, e um dos que mais colaboraram foi o fato da abertura de um grande leque de opções, a partir dessas raças, levando-se em consideração, ainda, que grande parte da população não sabe se auto-identificar.

A coordenadora da Associação dos Caboclos e Ribeirinhos, Helda Castro de Sá, 39, explicou que existe uma política racial, na qual todos os pardos se tornam negros, e o caboclo entra nesta denominação. Ela frisou que o governo Lula criou uma secretaria especial da igualdade racial, mas por meio do órgão apenas políticas voltadas às raças de índios e negros foram executadas até o momento, excluindo, os caboclos da região amazônica do foco.

Dia do Caboclo em pauta

Dia do

Durante a Conferência Nacional de Segurança Alimentar, realizada em julho deste ano no Ceará, foram aprovadas, de acordo com Helda Castro, propostas voltadas à categoria dos caboclos. Porém, ainda não é o suficiente, destaca ela, tendo em vista que a categoria não está inserida no decreto federal que denomina e reconhece às raças. "Estamos lutando junto às entidades para fazer parte do Fórum Mestiço de Políticas Públicas. Nosso principal objetivo é a busca pela igualdade racial", frisou.

Foi aprovada recentemente na Assembléia Legislativa do Estado (ALE) a lei estadual 3044, que cria o Dia do Mestiço, a ser comemorado pela primeira vez em 27 de junho do ano que vem. Além disso, foi sancionada uma lei estadual que estipula o Dia do Caboclo, ratificado em decreto para o dia 24 de junho. A data será comemorada anualmente pelos movimentos voltados à causa. "A próxima vitória será a incorporação do caboclo nas estatísticas do IBGE", assegurou Helda.

__________

 

Um abaixo-assinado que já conta com cerca de 1.000 assinaturas está sendo elaborado para esse mês

________

Um abaixo-assinado que já conta com cerca de 1.000 assinaturas será elaborado durante todo o mês de outubro, solicitando o reconhecimento da raça. O documento será encaminhado a prefeitos do Amazonas, ao governador Eduardo Braga e aos Ministérios Públicos Federal e Estadual, além de IBGE e autoridades federais. "Estamos colhendo assinaturas nas escolas, terminais de ônibus e universidades. O caboclo é o descendente do indígena que foi escravizado. A raça surgiu, historicamente, com a descoberta do Brasil e trata-se da mistura do branco com o índio", explicou Helda Castro. A coordenadora garante que o caboclo foi o primeiro mestiço a habitar o país.

 O presidente do Movimento Pardo Mestiço Brasileiro, Jerson César Leão AIves, 40, destacou como um dos maiores problemas enfrentados pela categoria, que é típica da região Norte do país, o direcionamento das políticas públicas apenas para grupos negros. "Na Amazônia, a maioria dos pardos não descendem do preto, e sim do índio. O movimento mestiço é contrário a essa linha. É importante essa distinção, pois mostra a origem de cada pessoa", frisou.

Do jornal Amazonas Em Tempo, Manaus (AM), domingo, 7 de outubro de 2007, Dia-a-dia, c/3.

 

Página Inicial   Nosso Grupo de E-mail / Nuestro Grupo de E-mail / Our E-mail Group

Hemeroteca. As páginas de divulgação de artigos, materiais e textos jornalísticos, já publicadas por outras instituições, que abordam temas e fatos relacionados a assuntos étnicos e raciais e o conteúdo e as opiniões neles expostos são de responsabilidade de seus autores, não necessariamente expressando no todo ou em parte opiniões ou posicionamentos do Nação Mestiça. Textos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores.

Mestiçofobia - DENUNCIE A POLÍTICA DO GOVERNO BRASILEIRO CONTRA MESTIÇOS

Mestizofobia - DENUNCIE LA POLÍTICA DEL GOBIERNO BRASILEÑO CONTRA MESTIZOS

Mestizophobia - DENOUNCE THE POLICY OF THE BRAZILIAN GOVERNMENT AGAINST MESTIZOS / MULTIETHNICS

Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro

Todos os direitos reservados