O garoto índio que foi enterrado vivo
Amalé quase foi morto em nome dos costumes indígenas.
E a Funai faz vista grossa ao infanticídio de algumas tribos

Amalé tem quatro anos. Como muitas outras crianças, na terçafeira 12 ele foi pela primeira vez à escola, em Brasília. Índio da etnia kamaiurá, de Mato Grosso, Amalé chamava a atenção dos demais garotos porque era o único que não usava uniforme nem carregava uma mochila nas costas. Mas Amalé se destaca dos demais por um motivo muito mais preocupante. O pequeno índio é, na verdade, um sobrevivente de sua própria história. Logo que nasceu, às 7 horas de 21 de novembro de 2003, ele foi enterrado vivo pela mãe, Kanui. Seguia-se, assim, um ritual determinado pelo código cultural dos kamaiurás, que manda enterrar vivo aqueles que são gerados por mães solteiras. Para assegurar que o destino de Amalé não fosse mudado, seus avós ainda pisotearam a cova. Ninguém ouviu sequer um choro. Duas horas depois da cerimônia, num gesto que desafiou toda a aldeia, sua tia Kamiru empenhou-se em desenterrar o bebê. Ela lembra que seus olhos e narinas sangravam muito e que o primeiro choro só aconteceu oito horas mais tarde. Os índios mais velhos acreditam que Amalé só escapou da morte porque naquele dia a terra da cova estava misturada a muitas folhas e gravetos, o que pode ter formado uma pequena bolha de ar.

A dramática história desse pequeno índio é a face visível de uma realidade cruel, que se repete em muitas tribos espalhadas por todo o Brasil e que, muitas vezes, tem a conivência de funcionários da Funai, o organismo estatal que tem a missão de cuidar dos índios. "Antes de desenterrar o Amalé, eu já tinha ouvido os gritos de três crianças debaixo da terra", relata Kamiru, hoje com 36 anos. "Tentei desenterrar todos eles, mas Amalé foi o único que não gritou e que escapou com vida", relata. A Funai esconde números e casos como este, mas os pesquisadores já detectaram a prática do infanticídio em pelo menos 13 etnias, como os ianomâmis, os tapirapés e os madihas. Só os ianomâmis, em 2004, mataram 98 crianças. Os kamaiurás, a tribo de Amalé e Kamiru, matam entre 20 e 30 por ano.

Os motivos para o infanticídio variam de tribo para tribo, assim como variam os métodos usados para matar os pequenos. Além dos filhos de mães solteiras, também são condenados à morte os recém-nascidos portadores de deficiências físicas ou mentais. Gêmeos também podem ser sacrificados. Algumas etnias acreditam que um representa o bem e o outro o mal e, assim, por não saber quem é quem, eliminam os dois. Outras crêem que só os bichos podem ter mais de um filho de uma só vez. Há motivos mais fúteis, como casos de índios que mataram os que nasceram com simples manchas na pele – essas crianças, segundo eles, podem trazer maldição à tribo. Os rituais de execução consistem em enterrar vivos, afogar ou enforcar os bebês. Geralmente é a própria mãe quem deve executar a criança, embora haja casos em que pode ser auxiliada pelo pajé.

Os próprios índios começam a se rebelar contra a barbárie. Neste momento, há pelo menos dez crianças indígenas em Brasília que foram condenadas à morte em suas aldeias. Fugiram com ajuda de religiosos e sobrevivem na capital graças a uma ONG, Atini, dirigida por missionários protestantes e apoiada por militantes católicos. A política oficial da Funai é enviar os exilados de volta à selva, mesmo que isso signifique colocar suas vidas em risco. "Não é verdade que entre os povos indígenas há mais violência e mais crueldade com seus infantes do que na população em geral", sustenta Aloysio Guapindaia, presidente em exercício da Funai, em resposta por escrito à ISTOÉ. "O tema, tratado de uma forma superficial, transparece preconceito em relação aos costumes dos povos indígenas", completa. Tem índio que não concorda. "Ninguém do governo nos ajuda a resolver o problema", queixa-se Kamiru, com o auxílio de um tradutor.

A recompensa pelo seu gesto de desafiar os costumes de sua gente vem daquele que ela salvou. "Minha verdadeira mãe não é a minha mãe. Minha mãe é a Kamiru", diz o pequeno Amalé.
Outra índia que ousou enfrentar a tradição foi Juraka, também kamaiurá, de uma aldeia próxima à de Amalé. Ela está refugiada com a filha, Sheila, nove anos, no abrigo ao lado da Granja do Torto. A menina faz tratamento no hospital Sarah Kubitschek. Nasceu com distrofia muscular progressiva, uma doença que a impossibilita de andar. A tribo descobriu o problema quando Sheila deveria estar dando os primeiros passos. A mãe fugiu antes de ser obrigada a aplicar a tradição. "Não gosto desse costume de enterrar a pessoa viva", diz Juraka, também com a ajuda do tradutor. No hospital os médicos disseram que não há nada a fazer. Sheila deverá passar a vida numa cadeira de rodas. "É a pessoa que mais amo no mundo, mais que meus outros filhos", diz Juraka. Mãe e filha já retornaram algumas vezes à tribo. Os índios passaram a respeitar a coragem de Juraka e já começam a aceitar Sheila.

"É um absurdo fechar os olhos para o genocídio infantil, sob qualquer pretexto", diz Edson Suzuki, diretor da ONG Atini. "Não se pode preservar uma cultura que vai contra a vida. Ter escravos negros também já foi um direito cultural", compara. Suzuki cria a garota Hakani, dos surwahás do Amazonas. Ela hoje tem 13 anos. A menina nasceu com dificuldades para caminhar. Os pais se recusaram a matá-la; preferiam o suicídio. O irmão mais velho, então com 15 anos, tentou abatê-la com golpes de facão no rosto, mas ela sobreviveu.

"O infanticídio é uma prática tradicional nociva", ataca a advogada Maíra Barreto, que pesquisa o genocídio indígena para uma tese de doutorado na Universidade de Salamanca, na Espanha. "E o pior é que a Funai está contagiada com esse relativismo cultural que coloca o genocídio como correto", ataca o deputado Henrique Afonso, do PT do Acre, autor de um projeto de lei que pune qualquer pessoa não índia que se omita de socorrer uma criança que possa ser morta.
Longe da tribo, Amalé quer continuar a freqüentar a escola, mas exige uma mochila. Ele já fala bem o português e avisa que gosta muito de carros. Quer dirigir um quando crescer. "Vamos aprender muito mais com Amalé do que ele com a gente", diz a diretora da escola, Aline Carvalho.


"NÃO SE PODE PRESERVAR UMA CULTURA QUE VAI CONTRA A VIDA"
Edson Suzuki, diretor da ONG Atini

Da revista Istoé, 20 de Fevereiro de 2008.

The Indian boy who was buried alive 
Amalé almost was killed in the name of Indigenous traditions. 
And the FUNAI makes a blind eye to the infanticide of some tribes 


Amalé has four years. How many children, on Tuesday 12 he was first time to the school, in Brasilia. Of Indian ethnicity Kamaiurá, from Mato Grosso [State], Amalé drew attention from the other boys because he was the only one who did not uniform or carrying a backpack on the back. But Amalé stands out from other because a much more worrying reason. The small Indian is, in fact, a survivor of their own history. Once born, to 7 hours of November 21, 2003, he was buried alive by the mother, Kanui. It follows therefore a ritual determined by the cultural code of Kamaiurás, which sends burying alive those generated by single mothers. To ensure that the destination of Amalé not be changed, your grandparents still stepped on the pit. Nobody heard even a cry. Two hours after the ceremony, in a gesture that challenged the entire village, his aunt Kamiru committed itself in disinterred the baby. She recalls the great bleeding in her eyes and nostrils and that the first cry only happened eight hours later. The older Indians believe that Amalé only escaped death because that day the land of the pit was mixed with leaves and foliage, which may have formed a small bubble of air. 

The dramatic story of this small Indian is the visible face of a cruel reality, which is repeated in many tribes scattered throughout Brazil, which often has the connivance of officials of FUNAI, the state agency that has the task of taking care of Indians. "Before disinter the Amalé, I had heard the screams of three children under the earth," reports Kamiru today with 36 years. "I tried desenterrar all but Amalé was the only one who not screamed and escaped with that life," reports. The FUNAI hides numbers and cases like this, but the researchers have found the practice of infanticide in at least 13 ethnic groups, such as ianomâmis, tapirapés and madihas. Only ianomâmis, in 2004, killed 98 children. The kamaiurás, the tribe of Amalé and Kamiru, killing between 20 and 30 per year. 

The reasons for infanticide vary from tribe to tribe, and different methods used to kill the small ones. In addition to the children of single mothers are also sentenced to death the newborns who carry physical or mental disabilities. Twins can also be sacrificed. Some ethnic groups believe that one represents the good and the other evil, and thus for not knowing who is who, eliminate the two. Others believe that only the animals may have more than one child at once. There are more futile reasons as cases of Indians who killed those who were born with simple patches on the skin - these children, according to them, can bring curse to the tribe. The rituals of execution are to bury alive, hanged or drown babies. Generally is the mother who must execute the child, although there are cases where it may be aided by pajé.

The Indians themselves are beginning to turn away against barbarism. At the moment there are at least ten indigenous children in Brasilia who were sentenced to death in their villages. They escape with help from religious and survive in the capital through an NGO, Atini, led by Protestant missionaries and supported by Catholics militants. The official policy of FUNAI is send the exileds back to the jungle, even if it means putting their lives at risk. "It is not true that among the indigenous peoples there is more violence and more cruelty with their infants than in the general population," argues Aloysio Guapindaia, President of FUNAI in written reply to ISTOÉ. "The theme, treated in a superficial way, clear bias in relation to the customs of the indigenous peoples", complete. Are Indian who disagrees. "Nobody from the government helps us solve the problem," complaint is Kamiru, with the help of a translator. 

The reward for his gesture to challenge the customs of its people comes from what she saved. "My real mother is not my mother. Kamiru My mother is," says the small Amalé.
Another Indian who dared face the tradition was Juraka also kamaiurá, a village next to the Amalé. She is surrounded with a daughter, Sheila, nine years in the shelter next to the Granja do Torto. The girl is in hospital treatment Sarah Kubitschek. Born with progressive muscular dystrophy, a disease that impossible to walk. The tribe discovered the problem when Sheila should be giving the first steps. The mother fled before being required to apply the tradition. "I do not like this habit of burying a person alive," says Juraka, also with the help of the translator. In the hospital the doctors said that there is nothing to do. Sheila should spend life in a wheelchair. "It is the person who most love in the world, more than my other children," says Juraka. Mother and daughter have already returned sometimes to the tribe. The Indians came to respect the courage to Juraka and begin to accept Sheila.

"It's an absurd close our eyes to the genocide child, under any pretext," says Edson Suzuki, director of the NGO Atini. "You can not preserve a culture that goes against life. Ter black slave also has been a definitive cultural," compares. Suzuki creates a girl Hakani, surwahás of Amazonas. She now has 13 years. The girl was having trouble walking. The parents have refused to kill her; preferred the suicide. The older brother, then aged 15, tried to slaughter it with puffs of facão the face, but she survived.

"The infanticide is a harmful traditional practice," the lawyer attacks Maíra Barreto, that the genocide indigenous search for a doctoral thesis at the University of Salamanca, Spain. "And the worst is that FUNAI is so moved by this cultural relativism that places the genocide as correct," Mr attacks Henrique Afonso, the PT of Acre, author of a draft law that punishes anyone who is not Indian, omit help a child who may be dead.
Far from the tribe, Amalé wants to continue to attend the school, but requires a backpack. He speaks well and the Portuguese warns that much like a car. Whether directing a while grow. "We will learn more with Amalé than him with us," says school director, Aline Carvalho.


"CAN NOT MAINTAIN A CULTURE THAT GOES AGAINST LIFE"
Edson Suzuki, director of the NGO Atini

IstoÉ Magazine, February 20, 2008