Movimento mestiço - Goli Guerreiro

Os primeiros dias de dezembro esquentaram o debate entre defensores da mestiçagem e do racialismo em Salvador. O lançamento do livro "A Utopia brasileira e os movimentos negros", de Antonio Risério, recolocou a idéia de mestiçagem em cabeça de página do Caderno 2 de A TARDE (03/12/07), enquanto a página de opinião, dias antes (01/12/07), trazia a posição do professor da Uneb Valdélio Santos Silva em defesa do Estatuto da Igualdade Racial, que, em última análise, separaria a sociedade brasileira entre negros e brancos.

A crítica do professor aponta para uma aliança entre alguns intelectuais e meios de comunicação, para desarticular a aprovação do Estatuto na Câmara dos Deputados. Essa articulação estaria impedindo o consenso que permitiria a prática do estatuto. A ausência de consenso, no entanto, não pode ser creditada a um suposto estratagema.

A pertinência do conceito de raça no contexto da sociedade brasileira merece, sim, ser altamente polemizada. A idéia de que formamos uma sociedade mestiça – uma das mais mestiçadas do planeta (em que pese o fato de que o ser humano é essencialmente mestiço, em qualquer tempo ou civilização) – não pode ser abandonada em prol dos resultados vislumbrados e comemorados por qualquer observador que espera e contribui para o desmantelamento das desigualdades sociais no País, drasticamente revelada no descompasso dos privilégios entre mestiços brancos, mulatos e pretos.

Sim, somos todos mestiços. Mas não de raças diferenciadas, já que somos uma única espécie.

Mas, sim, de culturas diversas. Somos, portanto, todos nós brasileiros, afrodescendentes, eurodescendentes, mourodescendentes, indiodescendentes. Antonio Risério tem razão quando afirma, em sua obra mais recente, que 500 séculos de mesclas não poderão ser apagados do modo de vida e da visão de mundo de um povo que ainda pode cumprir seu ideal: uma convivência realmente democrática entre gentes de todas as cores.

É impossível ignorar que a tese da separação da espécie humana em raças é obra do racismo científico, criado no mundo anglo-saxão e atualizado pelo seu filho dileto, os Estados Unidos.

Não concordamos que isso seja aplicado ao Brasil.

Posições diferenciadas, sim, é democrático, mas, por isso somos taxados de racistas.

É muito importante que intelectuais do movimento negro que encontram amplos espaços nos meios de comunicação se acostumem a debater idéias que partam de intelectuais do que pode ser chamado de movimento mestiço. É uma outra trilha, como disse Risério, uma "utopia brasileira", tão transformadora quanto original.

Desprezar a mestiçagem como valor fundamental da nossa cultura pode ser um equívoco sobre o qual diversas vozes se levantam. O que tramarmos juntos e não separados pode vir a ser muito poderoso, pode ser extraordinário!

De A Tarde, Salvador (BA), 07/12/2007, 1º Caderno.

http://atarde.ideavalley.com.br/flip/printArea.php?id_materia=015006ab26a3e889b551c037118cb9c2&id_edicao=a120c032364f2b2ff86d768fc39fb4bb

 

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