Comissão Geral para debater o Estatuto da Igualdade Racial
A Câmara dos Deputados promoveu uma Comissão Geral sobre o Estatuto da Igualdade Racial (PL 6264/05) no Plenário Ulysses Guimarães, no dia 26 de novembro de 2007. Os textos abaixo são cópia dos Discursos e Notas Taquigráficas do site da Câmara dos Deputados (http://www2.camara.gov.br/plenario/discursos).
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Arlindo Chinaglia) - Sras. e Srs.
Deputados, neste momento, transformo a sessão plenária em Comissão Geral para
debates sobre o Estatuto da Igualdade Racial.
Nossas boas-vindas a todos os presentes.
Sobre a mesa encontra-se à disposição dos Srs. Parlamentares folha de inscrição
destinada a quem queira fazer uso da palavra. O tempo reservado a cada um dos
expositores é de 5 minutos. Dispomos de 2 listas: a primeira dos oradores
convidados; a segunda, dos Deputados.
Esta Comissão Geral foi gestada a partir de contatos realizados não apenas com
os Deputados, mas também com representantes das mais distintas áreas da
sociedade, pessoas contrárias e a favoráveis aos temas tratados no Estatuto da
Igualdade Racial.
Convido a Ministra Matilde Ribeiro para compor a Mesa. (Palmas.)
Para que todos entendam a regra, esclareço que as indicações são feitas pelas
Lideranças partidárias. Não foi estabelecido um limite, nem caberia à
Presidência dos trabalhos tentar antecipar quantos têm essa ou aquela posição.
Assim, ao final, pode-se chegar à constatação de que na defesa de determinada
posição há mais pessoas do que na de outra, mas isso, repito, é responsabilidade
das Lideranças que fizeram as indicações, não da Presidência. De qualquer
maneira, não é o volume de inscritos que vai interferir no andamento dos
trabalhos. O que interfere é a qualidade dos argumentos apresentados em cada uma
das posições.
Desde logo, quero dizer a todos os presentes que vou disponibilizar o vídeo
desta Comissão Geral no site da Câmara. Também serão disponibilizados os
pronunciamentos, por meio das notas taquigráficas, para os gabinetes dos
Parlamentares, a fim de que todos tenham a segurança de que a mensagem vai
chegar àqueles que, ao final, terão o poder de decidir quando a matéria estiver
na pauta.
Por falar nisso, ressalto que esta Comissão Geral é uma preparação para que os
Parlamentares tenham mais elementos de análise. Aqueles que já têm posição,
eventualmente, podem até mudar de opinião. Mas esse debate, creio, é mais útil
para os que ainda estão sem uma definição cabal. Portanto, os argumentos aqui
expostos vão ser muito importantes.
A intenção -- e, é claro, este é um processo igualmente negocial -- é levar o
tema à pauta do Plenário, sem nenhum açodamento, porém, sem deixar para momentos
indefinidos a deliberação a respeito. Estou aberto a ponderações, mas não aqui
nesta Comissão Geral. De forma que, se amanhã, alguém julgar necessário fazer
contato, agirei com total abertura e responsabilidade, objetivando sempre fazer
o melhor.
Antes de conceder a palavra à Ministra Matilde Ribeiro, informo que adotarei o
critério de acatar as inscrições somente das indicações das Lideranças. Entendo
que até possa haver pleito individual, mas vamos nos organizar a partir daquilo
que é regra geral.
A SRA. MINISTRA MATILDE
RIBEIRO - Bom-dia, Deputado Arlindo Chinaglia, Presidente da Casa e
Presidente desta sessão; Sras. e Srs. Parlamentares; representantes de
movimentos sociais; representantes das demais instituições, tenho bastante
prazer de estar aqui representando o Governo Federal, na condição de Ministra da
Secretaria Especial de Políticas de Promoção de Igualdade Racial.
No tempo que me foi concedido, procurarei ser bastante direta, considerando o
papel que estamos exercendo e os projetos que estamos desenvolvendo no Governo
Federal que têm a ver com os projetos que tramitam nesta Casa.
Em primeiro lugar, no que diz respeito à promoção da igualdade racial, as ações
do Governo Federal se iniciaram em meados dos anos 90 por demanda do movimento
social.
Destaco a Marcha Zumbi dos Palmares Contra o Racismo, Pela Cidadania e a Vida,
que, em 1995, foi responsável pela entrega de documento ao então Presidente da
República, considerando as propostas acumuladas pelo movimento social para a
superação do racismo no Brasil. De lá para cá, muitas coisas aconteceram.
A partir de 2003, 4 aspectos merecem destaque: a criação da Secretaria Especial
de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, órgão coordenador dessas políticas
no âmbito do Governo Federal e responsável pela relação com os Governos
Estaduais e Municipais; o Decreto nº 4.887, que reorganizou as ações para as
comunidades remanescentes de quilombos - hoje, 3.500 mapeadas pelo Governo
Federal -, gerou o Programa Brasil Quilombola e considerou a regularização
fundiária e o acesso às políticas públicas; o PROUNI, programa inserido no campo
das ações afirmativas coordenado pelo Ministério da Educação e voltado às
universidades particulares, que propicia a inserção de mais de 300 mil jovens em
universidades particulares, graças ao acesso a bolsas parciais e integrais, uma
novidade em nosso cenário, uma vez que, em geral, pobre paga caro para estudar
no Brasil, e o desenvolvimento do Plano Trabalho Doméstico Cidadão, que prevê a
valorização do trabalho doméstico, categoria profissional relegada à
invisibilidade ao longo da história e que é composta, em sua maioria, por
mulheres negras.
Esse é um cenário muito rápido das ações de Governo.
Consideramos fundamental a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial,
especialmente levando em conta o fato de que as ações do Governo estão em
consonância com a Constituição brasileira de 1988 e que é necessário avançarmos
na produção de instrumentos auxiliares a essa Constituição.
Portanto, o Estatuto da Igualdade Racial, debatido de maneira bastante exaustiva
ao longo dos anos nesta Casa, com a participação de movimentos sociais dos 4
cantos do Brasil, já aprovado no Senado em novembro de 2005, por meio da ação do
Senador Paulo Paim, é uma peça fundamental para assegurar a continuidade das
ações de Governo e afirmá-las como política de Estado, considerando a
importância da normatização dessas ações na relação entre Estado, Governo
Federal, Governos Estaduais e Governos Municipais.
A sociedade brasileira, que, no próximo ano, comemorará os 120 anos da abolição
da escravatura, necessita de instrumentos de Governo e de Estado para assegurar
políticas para os mais de 50% da população que são afrodescendentes, segundo
dados oficiais do IBGE e de outros órgãos, e também a importância de
valorizarmos a iniciativa de Governo nas 3 esferas.
Estão hoje credenciadas no Fórum Intergovernamental de Promoção da Igualdade
Racial cerca de 480 localidades no Brasil com programas, projetos e ações
voltados para a promoção da igualdade racial, entre eles 23 Governos Estaduais -
o restante são Governos Municipais - e aproximadamente 180 localidades com
Secretarias e órgãos similares à SEPPIR.
Finalizo, Sr. Presidente, dirigindo-me às Sras. e aos Srs. Deputados para
afirmar que o Governo brasileiro tem compromisso com a promoção da igualdade
racial, um processo em andamento. E sabe o Governo que será impossível, em
apenas 8 anos de gestão, responder às demandas acumuladas nos mais de 500 anos
de existência do nosso País.
Não podemos cruzar os braços diante de injustiças, de invisibilidades e de casos
históricos. A abolição deixou profundas marcas de desigualdades na nossa
realidade social, política e econômica. Agora, compete a nós, por meio da adoção
de políticas públicas efetivas, que devem ser um crescente na nossa história,
construir as condições para a inclusão social e racial, bem como aprovar o
Estatuto da Igualdade Racial, junto com o PL nº 73, de 1999, que prevê a reserva
de vagas nas universidades públicas, o que não impede que 40 universidades
públicas, federais e estaduais, já estejam adotando as ações que dizem respeito
à inclusão de pobres, negros e indígenas.
Esse caminho para o debate e, por conseqüência, a aprovação do Estatuto da
Igualdade Racial e do Projeto de Lei nº 73, de 1999, deve ser um compromisso dos
Parlamentares aqui presentes, da sociedade civil, do Governo e de todas as
instâncias que assumem seu papel na produção da igualdade no País. É hora de dar
continuidade ao que foi demandado ao longo destes 500 anos não apenas pelas
populações negra e indígena, mas também pelos que conseguiram compreender os
efeitos do racismo e das desigualdades, efeitos que fizeram com que a maior
parte da população brasileira que produz a riqueza nacional dela não usufrua.
Essa parcela da população tem direito às ações afirmativas como um todo, em
todas as áreas, sobretudo na de educação.
Muito obrigada. (Palmas.)
O SR. JOSÉ CARLOS MIRANDA
- Sr. Presidente, é uma honra participarr deste debate democrático, com a
presença de Deputados, companheiros de jornada do movimento social, do movimento
sindical, professores, intelectuais e companheiros do movimento negro.
A discussão do Estatuto da Igualdade Racial ganha grande relevância justamente
por coincidir, em um momento histórico brasileiro e internacional, com o fato de
podermos fazer um balanço e uma avaliação da aplicação dessas políticas em
vários países. Com isso, podemos refletir sobre a situação do povo oprimido e
explorado em todo o planeta e sobre a aplicação das políticas e legislações que
diferenciam não minorias, mas setores significativos da população de um país
identificados pelas diferenças religiosas, pela cor da pele etc. A partir daí,
os legisladores definem direitos diferentes entre os cidadãos.
Por isso, Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, senhoras e senhores, a
reflexão que trazemos é a do balanço da aplicação dessas políticas, é
principalmente a reflexão daqueles que enxergam a história da sociedade como a
dos oprimidos e dos explorados em busca por liberdade, igualdade e oportunidade.
A política de cotas foi doutrinariamente aplicada pela primeira vez por um país
que ainda hoje tem uma das piores distribuições de renda do mundo, a Índia, que
possui 1 bilhão de habitantes, para tentar absorver uma parcela daquela
sociedade, os dalits, ou intocáveis, ou párias, que, pelo sistema indiano
de castas não tinham condições de mobilidade social.
O que podemos ver de 1949 para cá? Fundamentalmente, que, no que respeita às
massas exploradas e oprimidas, a imobilidade e a desigualdade social não
diminuíram.
A partir da aplicação de políticas que incrustaram o conceito de raça na
legislação e das leis de Jim Crown , do início do século passado, os Estados
Unidos produziram a "racialização", a "enguetização" do país, bem como a
formação de um ódio racial que é observado na conformação de um agrupamento
fascista, de antes do fascismo, chamado Ku Klux Klan. Ao mesmo tempo,
principalmente ao sul dos Estados Unidos, nas plantations, os negros, na
grande maioria, pobres, oprimidos e explorados, iniciaram uma mobilização que
culminou no movimento por direitos civis naquele país.
Em 1972, a partir da luta pelos direitos civis, os Estados Unidos começaram a
aplicar políticas de cotas ou de ações afirmativas raciais, não em sua lei
fundamental, a Constituição, mas em várias instituições. Em 1966, já havia em
prática algumas dessas políticas, mas apenas de 1972 em diante elas começaram a
vigorar em várias instituições nos Estados Unidos.
Qual o balanço desses fatos ocorridos nos Estados Unidos? A desigualdade entre
pobres e ricos aumentou, a distância entre negros ricos e negros pobres também
aumentou, e o racismo não afundou. Tal política gerou Condoleezza Rice, Colin
Powell, negros que ascenderam socialmente, mas, ao mesmo tempo, gerou também o
chamado "furacão negro": as vítimas do furacão Katrina. A maioria do povo negro
e pobre do país mais poderoso do mundo não teve mobilização, o racismo não
acabou, e a desigualdade só aumentou.
Portanto, quando falamos sobre o perigo da "racialização" para o Brasil, não
queremos gerar medo ou vaticinar "será assim ou assado". Neste momento, porém, é
importante ressaltar que essas políticas já foram aplicadas e estão sendo
transportadas para o Brasil sem a devida discussão - a propósito, saúdo a
Presidência da Câmara dos Deputados por esta iniciativa e o Senador Paulo Paim,
que, ano passado, promoveu uma discussão sobre o tema.
À época, entregamos aos Presidentes Aldo Rebelo e Renan Calheiros carta aberta
em que alertávamos o Congresso Nacional para o fato de que a discussão não havia
sido suficiente. Tanto era verdade que Senadores aprovaram, por meio de voto de
Liderança, o Estatuto de Igualdade Racial e, depois, mudaram de posição. Assim,
outros aprofundaram seus conhecimentos sobre o assunto. Ou seja, os debates
realizados não foram suficientes, e existe um gérmen de armadilha embutido no
Estatuto de Igualdade Racial.
Não me oponho a cotas sociais. Aliás, não me oponho a cotas na universidades.
Que cada uma crie seu método de vestibular. Quero é discutir o fim do vestibular
e como podemos criar vagas para todos. Portanto, não vou entrar na discussão,
tampouco a ela me opor.
Mas, a partir do momento em que colocamos a raça como algo basilar, uma linha
definidora de direitos e deveres para um povo, arriscamos muito. A Esquerda e
todas as lutas populares do últimos séculos beberam do sumo da igualdade
jurídica dos cidadãos.
Se a República, no modo de produção em que vivemos hoje, não conseguiu cumprir
esse papel por meio de políticas universalistas, foi porque a política
universalista aplicada pelo Estado nunca foi até o fim. Nunca conseguimos
discutir e desenvolver uma política econômica que favorecesse fundamentalmente
os investimentos sociais, que rompesse com a lógica do capital financeiro
internacional e nacional.
Temos de continuar esse combate. Temos de observar aqueles que querem chegar a
uma sociedade justa, igualitária e fraterna - o que para mim é uma sociedade
socialista -, na qual os grandes meios de produção são controlados
democraticamente por todo o povo.
Sr. Presidente, essa é a questão fundamental que temos de discutir, porque não
podemos acreditar que o Brasil, como está no Estatuto, deva ser dividido pela
lei em brasileiros e afro-brasileiros. Isso só pode dividir aqueles que são mais
explorados.
Essa é a nossa preocupação, é a discussão que queremos fazer e trazer à reflexão
dos Parlamentares e dos movimentos sociais de todo o País.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. HEDIO SILVA JUNIOR -
Bom-dia a todos. Exmo. Sr. Presidente Arlindo Chinaglia, Exmo. Sr. Senador Paulo
Paim, autor do projeto de lei em exame, Exma. Sra. Ministra Matilde Ribeiro,
Deputados e Senadores, representantes dos movimentos sociais que hoje nos
brindam com a sua presença, sobretudo a aguerrida militância do EDUCAFRO, que
viajou quilômetros de ônibus para estar aqui.
Primeiro, destaco a importância desta iniciativa. Esse projeto está em discussão
há 7 anos nesta Casa. Eu mesmo já participei de vários debates a seu respeito em
Comissões Permanentes desta Casa. Entretanto, é a primeira vez que eu vejo a
presença o Presidente da Casa conduzindo os trabalhos. (Palmas.)
Portanto, Sr. Presidente, é uma expressão de alento e de esperança a presença de
V.Exa. aqui, hoje. (Palmas.)
Nos 5 minutos que me cabem, vou tentar destacar 3 aspectos importantíssimos, a
meu juízo. Primeiro, que os detratores das cotas querem nos fazer crer que essa
seria uma invenção dos Estados Unidos da América. Tal afirmação resulta ou de
má-fé ou de ignorância, porque o Brasil adotou cotas em 1931. Talvez pudéssemos
dizer ainda que os Estados Unidos e outros países imitaram o Brasil, porque quem
conhece um pouco da História sabe que, em 1931, o Presidente Getúlio Vargas
adotou a primeira lei de cotas de que se tem notícia: a Lei dos Dois Terços, que
assegurou, àquela época, aos trabalhadores nacionais, dois terços das vagas em
qualquer empresa presente em solo brasileiro.
Segundo, em 1965, o Brasil adotou cotas em universidades, por meio da chamada
Lei do Boi. Quem, como eu, tem mais de 40 anos de idade e quem se dispôs a
estudar um pouquinho o tema antes de falar a respeito de maneira irresponsável e
inconseqüente sabem que o Brasil adotou o sistema de cotas em universidades para
filhos de trabalhadores rurais na década de 60.
Portanto, dizer que o Brasil, ao adotar cotas, está imitando os norte-americanos
é uma ignorância ou ato de fé rudimentar, barata. Espero que o debate possa
adquirir algum nível, não ficar num plano tão raso, como ouço aqui e ali.
Quem estudou um pouquinho da história norte-americana ou, pelo menos, se dispôs
a ver alguns filmes sobre a história norte-americana sabe que 5 anos depois da
Guerra da Secessão surgiu, no sul daquele país, a Ku Klux Klan, que enforcou 5
mil negros. Matava pessoas de maneira cruel, incendiava fazendas etc.
Portanto, dizer que as cotas criaram racismo nos Estados Unidos é uma perversão
moral e racial e uma desonestidade intelectual, e reputo ao fato de estarmos no
Brasil que argumento como esse venha a prosperar.
Sr. Presidente, na realidade, o Estatuto chega atrasado. Na condição de
professor de Direito, às vezes, sou obrigado a lidar com leis que criam fatos
políticos. Por exemplo, o Código de Defesa do Consumidor, aprovado depois que se
criou uma consciência entre os consumidores. No caso desse Estatuto, ao
contrário, está se correndo atrás dos fatos. Cota não é um projeto de futuro que
não se sabe se vai dar certo, se vai fazer cair o nível da universidades e todos
esses argumentos típicos do mais explícito racismo brasileiro. Nesse sentido,
aliás, o Estatuto tem a vantagem de fazer com que os racistas saiam do armário e
venham a público expor seus pobres argumentos.
O Estatuto se refere a uma realidade: hoje, mais de 40 instituições de ensino
superior no Brasil adotam cotas para negros. Se somarmos a essas instituições o
PROUNI, haverá 380 mil alunos negros pobres no ensino superior, e estão dando
certo. Aliás, certos setores da mídia são tão radicalmente contra as cotas que,
se uma dessas instituições houvesse dado errado, estaríamos tendo de ver isso na
primeira página de muitos jornais.
Portanto, o silêncio da mídia em relação ao sucesso das cotas deve ser
interpretado por esta Casa como demonstração cabal da sua pertinência e
oportunidade e de que, em relação a essas políticas, só falta que o Estado entre
em cena. Todas essas políticas foram adotadas por esforço das entidades ligadas
ao movimento negro. Falta ser convidado para esse jantar o Estado, o Poder
Público, porque a sociedade já fez a sua parte, os movimentos sociais já fizeram
a sua parte, as universidades, sem qualquer recurso, já fizeram a sua parte. E
esperamos que, agora, o Estado brasileiro faça a sua.
Muito obrigado. (Palmas prolongadas.)
A SRA. YVONNE MAGGIE DE LEERS
COSTA RIBEIRO - Exmo. Sr. Deputado Arlindo Chinaglia, agradeço à Casa o
convite para estar aqui hoje. É um privilégio ser ouvida por uma platéia como a
que me vem escutando e com a qual venho discutindo há muito tempo.
A minha principal crítica ao Estatuto da Igualdade Racial é em relação ao seu
art. 1º, que diz:
"Art. 1º Esta lei institui o Estatuto da Igualdade Racial, para combater a
discriminação racial e as desigualdades raciais que atingem os afro-brasileiros,
incluindo a dimensão racial nas políticas públicas desenvolvidas pelo Estado".
É um paradoxo combater o racismo criando a raça e, a partir desse paradoxo
enfatizar o grande problema que vejo quanto à elaboração de políticas públicas
com base na raça.
O Brasil é feito de brasileiros, que são diferentes entre si, mas já tivemos no
passado experiências que levaram a desastres quando o Estado assumiu para si o
direito e o dever de eleger uma como identidade de um povo inteiro. Identidade é
questão de foro íntimo. As pessoas podem se identificar com o que elas quiserem.
Portanto, quando o Estado se meteu a definir a identidade dos cidadãos, produziu
mais sofrimento do que alívio. E precisamos de alívio.
Faço um apelo aos movimentos sociais e a todos os cidadãos brasileiros: pensem
sobre essa questão básica.
Os antropólogos costumam dizer que as representações sociais, os valores e as
idéias são profecias que se auto-realizam. Logo, de tanto dizermos que as
pessoas têm raça, a raça será criada.
O Estatuto da Igualdade Racial, ainda em seu art. 1º, diz o seguinte:
"Art.
1º.......................................................................
§ 3º Para efeito deste Estatuto, consideram-se afro-brasileiros as pessoas que
se classificam como tais e/ou como negros, pretos, pardos ou definição análoga".
Sr. Senador Paulo Paim, grande formulador dessa lei para combate ao racismo,
Sras. e Srs. Deputados, pensem sobre esta questão: ao definir a identidade de
algum ou alguns movimentos sociais como identidade do País, acaba-se criando
aquilo que se quer destruir - o racismo, a divisão, a cisão e a própria idéia de
raça.
Fomos criados numa sociedade racista que impõe limites e impossibilidades aos
cidadãos. Como responsáveis pelos destinos desta Nação, precisamos lutar por
igualdade. Entretanto, o Estatuto da Igualdade Racial propõe a desigualdade
entre os cidadãos.
Somos um País composto de brasileiros. A raça é um critério que divide. Podemos
deixar de ser pobres, mas não podemos deixar de ser afrodescendentes nem
brancos.
O Estado impõe aos brasileiros a obrigatoriedade de se definir. Assim, em breve,
teremos um campo de luta. Digo isso não como uma Cassandra, que previu um futuro
terrível, mas com base na nossa história. Todas as vezes que uma identidade foi
tomada como a de todos, a sociedade sofreu muito.
Quando me perguntam o que fazer, respondo que este Governo elaborou uma das
melhores políticas para desenvolvimento da educação, e a ela os Srs. Deputados
devem recorrer. Precisamos nos unir para que sejam cumpridas as metas
estabelecidas no plano de desenvolvimento educacional.
A política, a justiça e a eqüidade não podem ser atingidas por um atalho, e esse
atalho proposto pelo Estatuto da Igualdade Racial vai nos causar muito
sofrimento. Por isso, proponho que nos liguemos ao grande trabalho que está
sendo feito pelo Governo Federal para o desenvolvimento da educação e que os
Srs. Deputados, nos seus respectivos Estados, lutem para que as metas sejam
atingidas. Só com povo educado, poderemos sair da barbárie e entrar na
civilização.
Muito obrigada. (Palmas.)
O SR. SIONEI RICARDO LEÃO - Sr.
Presidente, cumprimento V.Exa., a Ministra Matilde Ribeiro, o Senador Paulo Paim,
a Deputada Janete Rocha Pietá, da Frente Parlamentar pela Igualdade Racial, e os
companheiros do movimento social negro, pessoas vitoriosas que aqui estão.
O debate sobre política de igualdade racial que ora se realiza no plenário da
Câmara dos Deputados é uma vitória construída ao longo de décadas. Essa bandeira
foi o resultado da luta do movimento negro no Brasil. No entanto, recentemente
tem havido posições contrárias que se refletem na imprensa.
Como anunciou o Presidente, represento a Comissão de Jornalistas pela Igualdade
Racial do Distrito Federal - COJIRA-DF. Hoje, jornalistas do Rio Grande do Sul,
do Rio de Janeiro, de São Paulo, do Distrito Federal e de Alagoas estão se
organizando para debater o tema da igualdade racial. A nossa preocupação reside
no fato de a imprensa não traduzir a riqueza, a firmeza, a convicção e a
qualidade do debate sobre igualdade racial.
A imprensa, essa senhora burguesa que começou a se organizar no século XVII,
continua, no Brasil, com a visão burguesa de classe média. Por isso, as cotas
são importantes. Iniciativas como a da EDUCAFRO e do Instituto Steve Biko, em
Salvador - esta última protagonista da questão das cotas visando inserir
estudantes nas universidades -, têm contribuído para formar uma nova geração de
profissionais de comunicação. E essa formação é fundamental para que, nas
redações, estejam pessoas que compreendam a igualdade racial de forma diferente
da que percebemos hoje em dia.
A imprensa trabalha com a lógica de buscar a notícia, o fato diferente e
inusitado. E é por esse motivo que, às vezes, prefere o episódico, o
estereotipado, mas nem sempre o debate mais sério, mais embasado. É o que vemos
repercutir, infelizmente, por intermédio de pessoas que, muitas vezes,
contribuem para distorcer o debate.
Em um momento como este, por exemplo, é importante que as pessoas da imprensa
contribuam de forma diferenciada, pois trazemos o tema da igualdade racial para
o Plenário da Câmara dos Deputados, um espaço importante na redemocratização do
Brasil, para a manutenção das condições da nossa democracia e do espírito
republicano.
Nesta manhã, portanto, é valioso termos aqui pessoas que realmente trabalham a
questão racial de forma diferenciada, que traduzem suas comunidades, seus
movimentos.
Espero que a imprensa nacional, a partir da TV Câmara e da TV Senado,
divulgue este debate de forma qualificada e embasada.
É o recado que deixo.
Não tenho mandato, mas acho que posso citar as COJIRAs e os núcleos de
jornalistas pela igualdade racial.
Obrigado. (Palmas.)
O SR. ROQUE JOSÉ FERREIRA
- Sr. Presidente, Sra. Ministra Matilde Ribeiro, Sr. Senador Paulo Paim,
Deputado Carlos Santana - aliás, afasto-me do formalismo para me dirigir ao
companheiro Carlos Santana, ferroviário, artífice de manutenção, metalúrgico,
soldador que não aprendeu a soldar muito bem porque não fazia o traço com
perfeição, mas descascou bons ferros na ferrovia -, demais presentes, venho à
tribuna reiterar que este debate tem permeado o cenário nacional.
Para tanto, entendo que devemos partir de premissa que não seja maniqueísta,
qual seja, a de que existe vida inteligente apenas de um lado. Existe vida
inteligente em ambos os lados do debate. E não podemos nos dividir entre bons e
maus, porque não é este o debate que queremos fazer.
Sou negro, ferroviário há 27 anos, militante do movimento operário e poderia
começar a minha intervenção dizendo que estou extremamente feliz hoje porque
estou vindo de Curitiba, onde fui negociar a demissão de 650 ferroviários do
Grupo América-Latina Logística nos Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina,
Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e constatei que 80% dos
demitidos são brancos. Os negros foram, pela primeira vez, minoria nessa
demissão. Mas foi uma constatação equivocada. E por quê? Porque a maioria
esmagadora dos negros que eram ferroviários foram demitidos quando se iniciou o
processo de privatização das empresas ferroviárias deste País - não sobrou quase
nenhum.
Cito esse fato para dizer que respeito a posição do Prof. Hédio - a quem todos
consideramos honesto -, cujas argumentações perpassam esse debate.
Esses companheiros acreditam sinceramente ser possível, em um Estado republicano
democrático, balizado pela propriedade privada dos meios de produção e pela
exploração de uma classe pela outra, fazer inclusão social e pagar a dívida que
os negros e não-negros pobres têm a receber deste País.
Tenho outra opinião. Não quero, porém, fazer oposição nem colocar em uma escala
de prioridade a importância de se travar esse combate segundo o conceito
tradicional e clássico da luta de classes, subordinando a questão racial a essa
discussão. Não concordo com isso. Considero ser plenamente possível colocar, no
centro do debate, a verdade, verdade esta que deve ser dita aos trabalhadores,
doa a quem doer, agrade a quem agradar: não estamos participando de um concurso
de Miss Brasil.
Combato o racismo 24 horas por dia, mas entendo que o combate ao racismo deve
partir de um Estado que tenha o compromisso de promover o fim das desigualdades.
Não acredito que o Estado brasileiro, da forma como foi organizado depois da
abolição, tenha esse compromisso histórico, porque ele representa o interesse de
outras classes, e não da classe trabalhadora e operária, cujo maior extrato é a
população negra.
Ora, falamos em inclusão, mas éramos 110 mil ferroviários - e o setor
ferroviário foi um dos que mais empregou negros neste País -, e quantos
ferroviários são hoje? Na empresa em que trabalho, há 338; além de 2.700
trabalhadores indiretos.
Onde estão os negros que eram maquinistas ou torneiros mecânicos? Estão todos
trabalhando como terceirizados, empregados de forma precária, ganhando um
salário de 600 ou 750 reais, muito menos do que antes de serem demitidos, quando
ganhavam de 2 mil a 2.500 reais.
É lógico que isso afeta a realidade concreta da comunidade negra, do povo negro.
Mas cada um deve fazer suas escolhas. Alguns optaram por capitular, de maneira
vergonhosa, frente à política do Estado que explora uma classe pela outra.
Outros optaram por lutar contra o racismo no dia-a-dia - e é com estes que nós
nos identificamos.
Chego à conclusão de que o Estatuto, tal como está apresentado, não resolve o
problema da população negra deste País. Pode resolver o problema de uma parcela
dessa população que se desgarrou, que se destacou, que ascendeu social e
economicamente, mas não resolve o problema da maioria esmagadora do conjunto da
classe operária e trabalhadora, cujo maior extrato é a população negra.
Esse debate tem de ser feito com maior amplitude. E parabenizo a Casa por estar
aberta a essa discussão.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. LUIZ OSMAR MENDES -
Sr. Presidente, agradeço a V.Exa. por esta oportunidade. Ministra Matilde
Ribeiro; Senador Paulo Paim, companheiro de luta no Rio Grande do Sul e
proponente do Estatuto da Igualdade Racial; representantes da militância negra
de todo o País, demais presentes, bom-dia a todos.
A atividade na Câmara dos Deputados em defesa do Estatuto da Igualdade Racial
deveria estar acontecendo em todos os Estados bem mais profundamente. E não
acontece por uma simples razão: a nossa mídia é racista, tal qual todos que
lutam contra a implementação do Estatuto da Igualdade Racial. Essa é a verdade.
Todos aqueles, qualquer que seja o âmbito do discurso contrário à possibilidade
de implementação do Estatuto da Igualdade Racial, com certeza são racistas e,
portanto, contrários ao povo negro brasileiro.
Gostaria de tocar em algumas questões, como, por exemplo, a das cotas. Quem não
leu a História do Brasil não sabe que, um pouco antes de 1930, os europeus
vieram para cá por causa de uma política de branqueamento e foram beneficiados
por cotas. Receberam casa, comida, dinheiro, terra - e hoje nós, quilombolas,
estamos sendo atacados criminalmente pela Rede Globo. (Palmas.)
Mais ainda: o racismo não foi criado por nós, mas pelos brancos. Quando disseram
que tínhamos de ser escravos, criaram o racismo. Vejam Hitler, que não é uma
criação nossa, do povo africano, dos negros.
É muito difícil travar um debate coerente, claro, decente, quando nos apresentam
essas questões sobre costas. Fomos arrancados da África, mulheres foram
estupradas, fomos roubados, mutilados, e hoje dizem que não temos de falar em
raça, senão vamos dividir o Brasil. Que falácia! Que falácia! O Brasil já foi
dividido há muito tempo, desde que nos arrancaram da África e nos trouxeram para
cá. (Palmas.) Essa é a divisão, e agora não querem pagar a dívida secular
que têm conosco.
O Estatuto da Igualdade Racial pode não ser nossa redenção total, mas é um
caminho para ela. O Estatuto pode fazer com que não precisemos mais receber
Bolsa-Família, e quem mais a recebe é a população negra, que não tem emprego nem
trabalho.
Vejam o que informou o PNUD dias atrás. Afirma o IBGE que o Brasil é racista,
porque mulheres e homens negros ganham menos do que mulheres e homens brancos.
Percebam o quanto é importante diminuirmos ou acabarmos com o racismo
institucional no Brasil. Sim: institucionalmente este País é racista. E, por
favor, não venham querer comparar os Estados Unidos com o Brasil. A religião
adotada nos Estados Unidos fez com que o negro tivesse outra possibilidade de
luta e resistência, diferente do aconteceu aqui. A Igreja Católica nunca nos
permitiu ler e escrever. O protestantismo, ao contrário, obrigava as pessoas a
aprenderem para que pudessem ler a Bíblia. Eles tiveram um pouco mais de
possibilidade de crescimento. Mesmo assim, foi preciso criar ações afirmativas
para diminuir o racismo nos Estados Unidos. Diminuíram uma parte, mas continuam
racistas.
Sras. e Srs. Deputados, Sr. Senador, companheiros do movimento negro, o Estatuto
da Igualdade Racial pode fazer com que, por exemplo, sejamos incluídos no Plano
Nacional de Educação, Lei nº 10.172, aqui citada. Não estamos incluídos também
nos parâmetros curriculares nacionais.
E não precisamos do Estatuto? Não precisamos regular o Estado e a sociedade,
para que sejamos incluídos? Com certeza. Enquanto o Estatuto não for votado e
aprovado na íntegra, nesta Casa, com certeza, continuaremos excluídos.
Para encerrar, Sr. Presidente, faço um apelo a esta Casa e a todos os Deputados
e Senadores para que essa lei seja aprovada, juntamente com a PEC nº 02, de
2006, que institui o Fundo de Igualdade Racial. Afinal, sem dinheiro, não se faz
política. A política que se faz hoje no Brasil é com muito dinheiro e com o
nosso trabalho, o trabalho do povo negro.
Esse estatuto vai valer, sim, mas se a PEC nº 02, de 2006, não for aprovada, com
certeza, pouco ou quase nada será feito.
Obrigado, senhores e senhoras. (Palmas.)
O SR. JOSÉ ROBERTO MILITÃO - Exmo. Sr.
Presidente, querida professora e Ministra Matilde Ribeiro, Senador Paulo Paim,
Deputada Janete Rocha Pietá, em nome de quem cumprimento todos os Parlamentares
desta Casa, especialmente relembrando ação afirmativa que tem a assinatura da
família Pietá.
Em 1994, eu e o Pe. Batista iniciamos uma gestão com D. Paulo Evaristo Arns com
o intuito de conseguir bolsas de estudos para estudantes negros na PUC, em São
Paulo. O então Deputado Estadual Pietá nos acompanhou nessa luta. Juntos,
escrevemos um documento do qual o Frei Davi me pediu uma cópia, para levar para
a PUC do Rio de Janeiro, onde teve maior efetividade do que em São Paulo.
Portanto, a família Pietá está empenhada em ações afirmativas há muito tempo.
Na condição de militante negro, eu estava sentado à direita do Sr. Presidente da
Câmara dos Deputados nesta pequena bancada que está produzindo argumentações
para o Estatuto da Igualdade Racial. Quem me conhece - e iniciei minha
militância no movimento negro há pelo menos 28 anos - há de compreender que
efetivamente não sou racista. Aliás, a minha vida inteira tenho dedicado ao
combate ao racismo. Aprendi a participar do movimento negro para destruir a
causa fundamental da existência do racismo: a crença em raças.
Um dos argumentos recorrentes dos defensores das leis raciais é o de que
tratamos, no projeto de lei do Senador Paulo Paim, raça como construção social.
E é verdade. Desde o nascedouro da raça, quando se criou a idéia de dividir a
humanidade para oprimi-la, havia uma construção social. Não foi a Biologia nem a
Antropologia que criou a idéia de raça. A ciência veio depois para tentar
legitimar aquele conceito criado socialmente; a ciência, na sua evolução,
naufragou nesse objetivo, e a idéia continuou existindo como construção social
até os dias de hoje.
O nosso desafio, na condição de militantes do combate ao racismo, é a destruição
da causa e dos males que o racismo produz no mundo. O Brasil tem enormes
desigualdades raciais exatamente porque aqui ainda subsiste e impera o conceito
da crença em raça na cabeça da maioria do povo, especialmente das nossas elites.
Há, no projeto do Senador Paulo Paim, a minha impressão digital. Sempre
acreditei em ações afirmativas. Cheguei a elaborar e escrever anteprojeto sobre
o tema. Nos debates conduzidos nos idos de 1994 e 1995 pelo Dr. Hédio Silva
Junior, sempre combati o racismo, inclusive defendi que não poderíamos acolher
projeto para fazer ações afirmativas ou conceito idealizado pelo racismo.
Quem criou a idéia de raças foi a hierarquia, que criou inclusive a idéia da
raça negra, colocada na base inferior dessa hierarquia. E, enquanto subsistir a
idéia de raças, essa hierarquia vai subsistir.
Podemos e devemos criar ações afirmativas no Brasil, já disse o Senador Paulo
Paim num debate em São Paulo, mas não podemos perder a oportunidade do trâmite
legislativo desse projeto. Precisamos, por meio de um substitutivo, excluir essa
mácula, esse defeito de origem, a transformação de raça, especialmente da raça
negra, em identidade jurídica do nosso povo.
O nosso povo não quer e não precisa disso. Neste debate, é evidente que o que se
espera é a responsabilidade ética com o futuro, que este Parlamento não
transforme e entregue às futuras gerações um Estado "racializado".
Nesse debate, que é necessário, importante e fundamental, tenho sofrido danos
pessoais. Na minha intimidade, amigos fraternos de 20, 30 anos acabam por
destratar um amigo e companheiro fraterno, pela delicadeza do tema, pelas
divisões perigosas, pelos efeitos colaterais, que levam ao ódio e à raiva, em
razão dessa dissidência do conceito e da construção de uma legislação que,
depois de implementada, sem dúvida alguma, produzirá aquela crença do povo em
identidade jurídica de um Estado racial.
Muito obrigado, Sr. Presidente.
O SR. OTTMAR TESKE - Em
primeiro lugar, quero agradecer e parabenizar a Câmara pela iniciativa desta
Comissão Geral, na figura do Sr. Presidente, Deputado Arlindo Chinaglia. Quero
saudar também a Sra. Ministra e transmitir a saudação especial do Rio Grande do
Sul ao nosso timoneiro e um dos grandes orgulhos do Estado: o Senador negro
Paulo Paim.
Senhoras e senhores pode parecer meio estranho um loiro, alemão, de olhos azuis,
do Rio Grande do Sul, membro de uma universidade luterana, discutir sobre o
Estatuto da Igualdade Racial.
Quero, porém, destacar 4 instrumentos que acompanho de perto, por meio do
Programa Cantando as Diferenças, também de autoria do Senador Paulo Paim e que
tem basicamente um olhar sobre os Estatutos da Criança e do Adolescente, do
Idoso, do Portador de Deficiência e da Igualdade Racial.
Sou sociólogo e, ao longo da nossa caminhada, tenho percebido a existência de um
discurso de segregação. Escuto algumas pessoas dizerem que esses instrumentos
são segregadores. Mas, se avaliarmos o processo como um todo, veremos que as
estruturas governamentais do Estado moderno e a sociedade formam esses
instrumentos e deles necessitam para continuar avançando no que se refere aos
direitos humanos e à cidadania.
Os instrumentos políticos governamentais se organizam em 2 eixos.
O primeiro diz respeito às políticas afirmativas. É fundamental que tenhamos no
Brasil, neste momento, as Secretarias e Coordenadorias Especiais - das Mulheres,
da Juventude, das Pessoas com Deficiência, da Igualdade Racial.
O segundo diz respeito à questão legal, aos Estatutos - do Idoso, da Criança e
do Adolescente, da Terra, da Pessoa com Deficiência, a CLT. Por que precisamos
desses Estatutos? Por exemplo, o Estatuto da Terra precisa existir por causa das
diversidades naturais do planeta. Imaginem os senhores, se não existisse esse
estatuto, como estariam hoje o nosso ar, a nossa água e a própria terra? Talvez
a água fosse puro lodo; o ar, apenas pó, e a terra estivesse nua. E se não
tivéssemos o estatuto da CLT? Talvez o "sim, senhor", o trabalho escravo e o
compulsório estivessem cada vez mais ampliados. E o Estatuto da Criança e do
Adolescente? E o Estatuto do Idoso? Vamos imaginar como seria se não tivéssemos
esses instrumentos.
Vejam os senhores que tanto os Estatutos quanto as Coordenadorias e Secretarias
precisam existir neste momento histórico, mesmo que, para alguns, eles sejam
instrumentos segregadores. Mas, ao estudar essa realidade hoje, no Brasil,
constatamos que essa é a única forma pela qual tem sido possível frear o
preconceito e a discriminação fortemente introjetados e arraigados na
mentalidade de milhares de brasileiros contra as diferentes etnias.
Sei que o horizonte apontado pelos que defendem essas estruturas é o mesmo
referente ao direito de reconhecimento político de todos.
Mas surge outro questionamento: estamos prontos para viver sem esses
instrumentos no Brasil? Se os Estatutos são ruins, precisamos nos perguntar o
porquê. Tenho tido o privilégio de acompanhar esse debate em todo o País, mais
precisamente sobre o Estatuto da Igualdade Racial e o Estatuto da Pessoa com
Deficiência, e, particularmente, sou testemunha da relação humana e da
mobilização de todos nesse processo, independentemente de quem é contra ou a
favor.
Permitam-me destacar 3 tipos de agentes sociais que percebo neste universo: de
um lado, os que estão contra; do outro, quem é a favor, e, junto, os que querem
aprimorar essas ferramentas.
Na minha opinião, o mérito do Estatuto da Igualdade Racial reside em 2 aspectos:
primeiro, a aproximação, como acontece numa roda de chimarrão nos nossos
parques, entre os diferentes sujeitos e instituições, aproxima até aqueles que
não gostam muito do amargo, até aqueles que são contra; segundo, as mediações,
despertando interesse e atenção para a temática, levando essa discussão para as
universidades, as igrejas, o Congresso Nacional, os quilombos, as associações de
bairro, nas diferentes rotas.
Para concluir, digo que as portas sempre estarão abertas para quem quiser
conversar sobre o Estatuto da Pessoa com Deficiência e o da Igualdade Racial. E,
de o Presidente da República publicamente sugeriu a aprovação do Estatuto da
Igualdade Racial, foi porque precisamos cantar as nossas diferenças individuais,
culturais e sociais, dando palco para quem não o tem, olhando em direção ao
mesmo horizonte de Zumbi dos Palmares e Sepete Araju e, assim, concretizar os
ideais defendidos por esses heróis brasileiros.
Muito obrigado. (Palmas.)
A SRA. EDNA MARIA SANTOS
ROLAND - Sr. Presidente, agradeço o convite para participar deste importante
debate.
Na qualidade de Relatora-Geral da 3ª Conferência Mundial contra o Racismo, a
Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, gostaria
de relembrar que aquela importante conferência considerou que a escravidão e o
tráfico de escravos são crimes contra a humanidade e que todos os descendentes
dos africanos escravizados, reconhecidos ou não como tal, são também herdeiros
dos males causados a seus antepassados.
Todavia, o Estatuto da Igualdade Racial, que está em discussão, diferentemente
da declaração da pesquisadora Yvonne Maggie, em nenhum momento imputa a qualquer
cidadão brasileiro uma identidade étnico-racial. Isso é um falseamento do
conteúdo de sua proposta. Ele é muito claro quando diz que afro-brasileiras são
as pessoas que se classificam como tais ou como negros, pretos, pardos, numa
definição análoga. Portanto, se é essa a base da divergência de muitos dos que
se colocam contra o Estatuto da Igualdade Racial, não há base conceitual que a
justifique.
A respeito da manifestação do companheiro José Militão de que, a partir de
determinado entendimento, a questão se distanciou de nós, gostaria de lembrar
que a idéia em si não é capaz de criar realidades. É claro que as idéias fazem
parte da construção da realidade. Mas, meu querido, está partindo de uma idéia,
de um modelo equivocado de interpretação, julgando, primeiro, que a idéia cria a
realidade e que uma outra idéia é capaz de destruí-la, um temor impensado em
relação ao fato de que estamos nos dando conta da realidade concreta e social
que existe.
Enquanto não tivermos a capacidade de destruir o que V.Exa., Deputado Militão,
supõe que seja a causa do racismo, que é essa idéia, o que vamos fazer com os
milhares de jovens negros que morrem a cada dia vítimas do racismo? O que vamos
fazer com as crianças negras que morrem a cada dia vítimas da falta de
atendimento pelo sistema de saúde? O que vamos fazer com as mulheres negras que
apresentam índices inaceitáveis de mortes maternas? Trata-se, portanto, de
concepção absolutamente idealista, que está baseada no nada, em uma idéia
incorreta, na tentativa de dar conta do quotidiano de 49,8% da população
brasileira.
A pergunta que temos de fazer àqueles que são contra o Estatuto da Igualdade
Racial é esta: qual é a sua proposta de superação do racismo, das desigualdades
raciais no Brasil? (Palmas.)
Além da sua angústia de supor que estamos criando o racismo, não temos medo de
colocar as mãos na massa. Temos que enfrentar o racismo nas formas concretas,
como existe aqui, combatendo-o quotidianamente, propondo políticas de superação
do racismo. Não podemos ficar em casa desesperados com o que vamos fazer, com a
idéia de que, para lidar com os resultados de superação do racismo, temos que
lidar com o racismo.
O movimento negro brasileiro transformou em uma ferramenta de luta aquilo que
foi a causa da sua opressão. Imputaram-nos a pecha de seres inferiores por
sermos negros, e o que fizemos? Dissemos: "Somos negros. Somos negros e somos
seres iguais, somos seres diferentes, somos portadores de valores, somos
portadores de uma história". A partir desses valores e dessa história é que
vamos reconstruir nossa existência no mundo. Vamos lutar por igualdade, estamos
lutando por igualdade. Estamos lutando hoje aqui, estamos construindo essa
igualdade.
Não estamos desesperados com a questão das idéias. As idéias que comungamos são
exatamente as mesmas de V.Exa., Deputado Militão. Vamos superar o racismo na
luta. Se não pudermos superá-lo na sua integralidade, vamos superá-lo nas suas
conseqüências, vamos enfrentá-lo formulando e implementando políticas.
Sr. Presidente, os outros estatutos que antecederam o Estatuto da Igualdade
Racial, como o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Estatuto do Idoso, são
documentos que criam obrigações para o Estado e a sociedade. Essa é uma questão
fundamental, levando-se em conta o Estatuto da Igualdade Racial. Não podemos
conceber que o estatuto que vier a ser aprovado, num processo de debate, de
discussão, o que deve ser mantido dentro desta Casa, não crie obrigações do
ponto de vista das políticas que deverão ser implementadas pelo Estado
brasileiro, nos âmbitos, federal, estadual e municipal, e igualmente pela
sociedade civil.
A destruição do racismo, Deputado Militão, depende de todos nós. Depende do
Estado, mas também da sociedade. Está equivocado, companheiro, ficou do lado
errado. Espero que retorne ao nosso seio, onde será muito bem-vindo.
(Manifestação dos convidados.) (Palmas.)
O SR. ANTÔNIO LEANDRO DA SILVA
- Exmo. Sr. Presidente Arlindo Chinaglia, nesta manhã, neste novo quilombo,
com certeza, a Câmara dos Deputados ficará na história por debater temática tão
contundente e importante.
Nós cidadãos negros queremos manifestar publicamente nossa postura neste debate
e, ao mesmo tempo, saudar a Ministra Matilde Ribeiro, que tem sido uma mulher
aguerrida nessa nossa luta; o Senador Paulo Paim, aguerrido homem, altivo, que
tem demonstrado solidariedade neste momento; os Exmos. Srs. Deputados Carlos
Santana, Janete Rocha Pietá, enfim, todas as lideranças, todos os convidados; os
jovens da EDUCAFRO; o pessoal do Sindicato dos Comerciários, da Ação Afirmativa,
do Movimento Brasil Afirmativo. Estamos nessa luta.
Sr. Presidente, permita-me manifestar meu contentamento, minha satisfação
interior em estar hoje nesta Casa falando em nome de milhões de jovens negros e
negras, sobretudo daqueles que fazem parte da EDUCAFRO; em nome de milhares de
quilombolas espalhados por este imenso País; em nome de milhares de mulheres
negras; em nome de tantos outros negros e negras desempregados, sem acesso a
saúde, educação, lazer; em nome dos muitos babalorixás e ialorixás, que são
ridicularizados e estigmatizados simplesmente porque cultuam as matrizes
religiosas africanas; enfim, em nome de 49,8% da população negra brasileira.
Empresto minha voz a esses figurantes mudos nesta Comissão Geral, parabenizando
V.Exa. por ter usado desse recurso legal para levar à sociedade civil e política
a discussão de uma temática tão relevante e que necessita ganhar todos os
espaços sociais, religiosos e políticos, para que cheguemos a maior compreensão
da questão sociorracial brasileira.
Sr. Presidente, o Estatuto da Igualdade Racial representa um instrumento de
defesa dos que sofrem preconceito ou discriminação em função de sua etnia, raça
ou cor; representa a luta das entidades que formam o Fórum da Igualdade Racial
de São Paulo e do movimento negro em geral, que, ao longo das últimas 3 décadas,
vêm construindo políticas de combate ao preconceito e às discriminações;
representa um instrumento político-jurídico por meio do qual o Estado se deixará
orientar para implementar programas e medidas que tenham como fim a reparação,
compensação e inclusão das vítimas da desigualdade e a valorização da igualdade
racial.
Por intermédio do Estatuto da Igualdade Racial, o Estado brasileiro
regulamentará políticas compensatórias, visando ampliar e facilitar as
possibilidades de ascensão aos empregos públicos e aos assentos universitários
por parte daqueles que até hoje viram seus direitos alijados. Temos que
maximizar direitos em função daqueles que estão em situações desfavorecidas.
Por isso, Sr. Presidente, se justiça social é antes de tudo, como disse o
filósofo John Rawls, amparar os membros menos privilegiados da sociedade,
portanto, as elites dominantes têm que se conscientizar de que o que está em
jogo não é sua liberdade, senão a concretização do princípio da igualdade
racial, para que os menos privilegiados possam, também, ter a oportunidade de
ascender socialmente.
Uma sociedade que se propõe democrática e justa deve maximizar as expectativas
materiais dos menos privilegiados. Esses também devem conquistar a liberdade de
estudar, trabalhar, ter saúde digna, lazer, bens materiais. E isso somente será
possível reparando-se as injustiças passadas e sempre reproduzidas no contexto
atual. Essa reparação poderá advir somente por meio da prática de uma política
visando à equidade social claramente localizada e pontual.
É papel do Estado, sim, ao constatar setores sociais menos favorecidos, em
decorrência de raça, sexo, cultura, religião, utilizando-se de mecanismos
legislativos compensatórios, entrar em ação para buscar reparar, pela lei, as
injustiças cometidas.
Por fim, Sr. Presidente, aqueles que dizem que o Estado, a priori, não
deve legislar em termos só raciais, porque correria o risco de estabelecer um
apartheid, estão ideologicamente estimulando tal comportamento. Esses, sim,
são os verdadeiros incentivadores dessa segregação, que, por sinal, já existe
social e geograficamente desde a colonização do País. Ademais, são pessoas muito
conservadoras. Perguntemos a tais pessoas se seus filhos estudam em escolas
públicas. Dirão que não, porque não temos um ensino básico de qualidade. Mas não
estão sendo incoerentes e farisaicas quando se esforçam para que seu filhos
estudem em universidades públicas? As universidades públicas devem ser para os
egressos das escolas públicas.
Alunos que fazem o ensino fundamental e médio em escolas particulares deverão
continuar seus estudos superiores nas universidades particulares, pagando. Assim
existiriam cotas para esses estudantes brancos e não aquelas pelas quais lutamos
hoje, para que o negro e o indígena adentrem nas universidades públicas.
Sr. Presidente, muito obrigado pela oportunidade.
Juntos venceremos!
Muito obrigado. (Palmas.)
|
PRONUNCIAMENTO ENCAMINHADO PELO ORADOR |
Excelentíssimo Sr. Arlindo Chinaglia, Presidente desta Casa, Excelentíssimos
Srs. Deputados, caríssimas autoridades aqui presentes, prezados convidados,
companheiros do Fórum, "vem de lá, vem do seio da Mãe África esta força pra
lutar".
Imbuído dessa força que vem dos nossos antepassados sobretudo, do espírito
guerreiro e altivo de Zumbi dos Palmares, permitam-me manifestar meu
contentamento e satisfação interior em poder estar hoje, nesta Casa, falando em
nome de milhões de jovens negros e negras; em nome de milhares de quilombolas
espalhados nesse imenso País; em nome de milhares de mulheres negras; ou mesmo,
em nome de tantos outras negros e negras desempregados, sem acesso à saúde, à
educação, ao lazer; em nome dos muitos Babalorixás e Yalorixás que são
ridicularizados e estigmatizados simplesmente porque cultuam as matrizes
religiosas africanas, enfim, em nome dos 51% da população negra brasileira. Por
isso empresto minha voz a esses "figurantes mudos" nessa Comissão Geral.
Parabenizando o Dep. Arlindo Chinaglia por ter usado desse recurso legal para
levar à sociedade civil e política a discussão de uma temática tão relevante e
que necessita ganhar todas os espaços sociais, religiosos e políticos para que
cheguemos a uma maior compreensão da questão sócio-racial brasileira
A luta por cidadania plena tornou-se o dilema do Fórum de igualdade Racial SP,
lançado no dia 29 de junho e formado por vinte e cinco entidades e movimentos
sociais. Essa cidadania plena consiste na conquista dos direitos civis,
políticos e sociais, porque não queremos ser cidadãos incompletos. Sim, somos
cidadãos incompletos porque ainda sofremos os efeitos de uma Abolição
inconclusa. Pois no Pós-Abolição, o Estado não se preocupou em discutir e
assumir uma agenda de reparação dos milhões de ex-escravos; pelo contrário,
deixou-os abandonados: sem terra, sem moradia, sem educação, sem saúde, cujos
efeitos sentimos hoje especificamente na atual geração de negros.
E o Fórum pela Igualdade Racial de São Paulo vem ganhando simpatizantes e
entidades que querem somar nessa luta. Uma luta cuja motivação encontra-se no
ideário abolicionista de Zumbi (Alagoas, 1655 - 20/11/1695) dos Palmares O grito
deste incansável Guerreiro e lutador por liberdade e eqüidade social continua a
ecoar no imaginário de milhões de negros brasileiros. Zumbi é paradigmático para
o Movimento Negro Brasileiro porque nele encontra-se um dos princípios do
ideário abolicionista: a luta pela liberdade e cidadania plena dos
afro-brasileiros. Nesse sentido, a democracia substantiva somente tornar-se-á
uma realidade quando essa população (51%) tiver pleno acesso às condições de
igualdade de oportunidades na vida econômica social, política cultural e
religiosa do país. Por isso, a luta incansável pela cidadania plena do negro
brasileiro tem sido - ao longo dos últimos anos - a bandeira número um desse
Movimento.
Sr. Presidente, esta Casa, permita-me dizer, torna-se, nesta manhã, um "Novo
Quilombo" que a história do Congresso Nacional há de escrever em seus anais. Os
senhores Deputados sairão daqui convictos de que sobre vossos ombros recai uma
responsabilidade social visto que os senhores representam parte da população
negra que já acompanha os vossos passos e posturas políticas frente à questão
racial. Tenhais muito cuidado, pois o universo eleitoral negro começa a tomar
novos direcionamentos e contornos sociopolíticos. O Estado brasileiro tem uma
dívida para com aqueles que construíram este país. Em toda a estrutura social
encontra-se um legado da presença e da força do negro. Muitos escamotearam e
ainda tentam escamotear essa verdade, porque, além de conservadores, não aceitam
que os negros tenham acesso à mobilidade social. Mas somente com a conquista dos
espaços institucionais, alcançaremos a verdadeira emancipação
sócio-econômica-política e religiosa.
Contudo, essa emancipação depende também, e necessariamente, do engajamento e
compromisso dos Srs. Deputados com a aprovação dos projetos que tramitam no
Congresso - Estatuto da Igualdade Racial, o PL Cotas 73/99 e a PEC 02/2006.
Gostaríamos que os nomes dos senhores ficassem na memória dos nossos
afro-brasileiros, como mulheres e homens corajosos, audaciosos e destemidos no
combate às desigualdades raciais, como foram nossos abolicionistas: Luis Gama,
André Rebouças, Joaquim Nabuco, ou mesmo José do Patrocínio. Sem dúvida, esses
instrumentos farão com que tenhamos acesso de oportunidade em todos os serviços
e bens sociais. Esses instrumentos hão de democratizar as instituições
brasileiras, fazendo com que o negro saia da invisibilidade social.
Sr. Presidente, as cotas têm trazido altivez e auto-estima aos nossos jovens
universitários negros (as). Na Educafro temos ouvido centenas de depoimentos
positivos e proativos em defesa da aprovação das cotas para negros e indígenas
nas universidades públicas. Hoje - como bem ouvimos dos nossos excelentes
oradores, baluartes de um legado cultural afro-brasileiro -, são 57
universidades federais e estaduais que já adotam um tipo qualquer de ação
afirmativa, destacando as cotas. Nunca se ouviu nenhum depoimento de que os
jovens que entraram pelo sistema cota tenham se agredido e causado uma
segregação; conflitos; mortes; pelo contrário, pesquisas têm mostrado que
estudantes cotistas têm alcançado média igual ou superior a alunos que entraram
pelo sistema universal e meritocrático; eles convivem de igual forma; nunca
ouvimos dizer que algum cotista tenha necessitado de um psicanalista, para que
eventualmente pudesse superar qualquer constrangimento e/ou crise existencial
por ter entrado via cotas.
Aqueles que dizem que o Estado, a priori, não deve legislar em termos raciais,
porque correria o risco de um aparthaid, estão, ideologicamente, estimulando tal
comportamento; eles sim, são os verdadeiros incentivadores dessa segregação, que
por sinal já existe social e geograficamente desde a colonização desse país.
Ademais são pessoas super conservadoras. Perguntemos a tais pessoas se seus
filhos estudam em escolas públicas? Dirão que não, porque não temos um ensino
básico de qualidade. Mas não estão sendo incoerentes e farisaicas, quando se
esforçam para que seus filhos estudem nas universidades públicas? As
universidades públicas devem ser para os egressos de escolas públicas. Alunos
que fazem o ensino fundamental e médio em escolas particulares deverão continuar
seus estudos superiores nas universidades particulares, pagando. Ah, sim, para
esses estudantes brancos deveriam existir cotas, e não como hoje lutamos, para
que o negro e o indígena adentrem nas universidades públicas pelo sistema de
cota.
Não esqueçamos de que quem entra nas boas universidades públicas são os brancos.
É difícil ver um negro nos cursos de ponta da USP. Olhemos o investimento
público que essa instituição recebe! E onde fica o investimento do Estado na
educação dos negros?
Para os liberais, um dos principais ingredientes da felicidade humana é o
progresso individual e social do indivíduo. Para Stuart Mill, "o livre
desenvolvimento da individualidade é um dos elementos essenciais do
bem-estar". E o indivíduo somente desenvolve plenamente sua individualidade
quando esse bem-estar o dispõe de "civiIização, instrução, educação,
cultura" Ora, então ao negro foi vetado o direito de desenvolver plenamente sua
individualidade, porque o Estado e a sociedade não lhe dispuseram
bem-estar, tais como: "civilização, instrução, educação, cultura". Portanto,
se o livre desenvolvimento da individualidade é parte e condição necessária
desse "bem-este é o momento em que o Estado deve corrigir tais danos aos negros,
oferecendo-lhes condições políticas para que alcancem esse "bem-estar".
Nessa visão utilitarista, os brancos brasileiros não deveriam ficar indiferentes
aos meios por que o Estado se apropriam para que o fim - o "progresso individual
e social" do negro - seja potencialmente alcançado, uma vez que sua
individualidade foi prejudicada por terceiros. Então, o papel do Estado é
corrigir tais danos, punindo esses terceiros. E as ações afirmativas são
essenciais porque vêem reparar tal estado de prejuízos.
Portanto, há todo um processo histórico de lutas e embates políticos que são
necessários mencionar no momento da discussão. Porque a desigualdade racial
vigente, no Brasil, tem fortes raízes históricas e esta realidade não será
alterada significativamente sem a aplicação de políticas públicas dirigidas
especificamente a esta população. No Pós-ção houve uma completa exclusão do
ex-escravo em termos de acesso à terra, à renda, enfim, a um conjunto de
direitos sociais definidos como "direitos de todos".
O Estatuto da Igualdade Racial representa um instrumento de defesa dos que
sofrem preconceito ou discriminação em função de sua etnia, raça e/ou cor;
representa a luta das entidades que formam o Fórum SP e do movimento negro em
geral, que ao longo das últimas três décadas vêm construindo políticas de
combate ao preconceito e às discriminações; representa um instrumental
"político-jurídico" através do qual o Estado deixar-se-á orientar para
implementar programas e medidas que tenham como fim "a reparação, compensação e
inclusão das vitimas da desigualdade e a valorização da igualdade racial" (Art.
4º); enfim, representa um conjunto de mudanças na própria maneira de pensarmos e
vermos o "outro", o diferente, isto é, o homem negro, a mulher negra; porque
essa transformação de atitude passa pelo acolhimento desse outro numa visão
solidária, fraterna e igualitária. Isso significa respeito ao diferente.
Através do Estatuto da Igualdade Racial, o Estado brasileiro regulamentará
políticas compensatórias, visando ampliar e facilitar as possibilidades de
ascensão aos empregos públicos e aos assentos universitários por parte daqueles
(as) que até hoje viram seus direitos alijados. Temos que maximizar direitos em
função daqueles que estão em situações desfavorecidas. Por isso, se "justiça
social é antes de tudo, como disse o filósofo John Rawls, amparar os membros
menos privilegiados da sociedade" (John Rawls, 1971), portanto, as elites
dominantes, têm que se conscientizar de que o que está em jogo não é sua
liberdade senão a concretização do princípio da igualdade para que os menos
privilegiados possam, também, ter a oportunidade de ascenderem socialmente. Uma
sociedade que se propõe democrática e justa deve maximizar as expectativas
materiais dos menos privilegiados. Estes também devem conquistar a liberdade de
estudar, trabalhar, ter saúde, lazer, bens materiais. E isso somente será
possível reparando as injustiças passadas e sempre reproduzidas no contexto
atual. E esta reparação poderá advir somente através da "prática de uma política
visando a equidade, claramente localizada e pontuar (John Rawls, 1971). É papel
do Estado - ao constatar setores sociais menos favorecidos - raça, sexo,
cultura, religião, e utilizando-se de mecanismos legislativos compensatórios -
entrar em ação para buscar reparar, pela lei, as injustiças cometidas. Mas a
responsabilidade e sensibilidade não devem apenas aos partidos, mas também a
todos os segmentos da sociedade civil.
Assim, como disse o Desembargador Paulo de Tarso Sanseverino, o princípio da
isonomia não deve ser analisado em seu aspecto formal, mas em perspectiva
material. "Pois a deflagração de políticas pró-ativas, de ações afirmativas,
frente à questão da segregação racial, de forma a apaziguar os prejuízos
impingidos a determinados grupos, excluídos de certos segmentos sociais,
econômicos e culturais e com o gozo de direitos humanos e liberdades
fundamentais mitigados, não revela violação ao princípio da igualdade". (Paulo
de Tarso Sanseverino, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, reconhece a
constitucionalidade e a possibilidade de implantação de cotas destinadas a
grupos raciais em concursos públicos - Site: Espaço Vital.)
Mas pelo contrário, tomadas, como alternativas que têm como fim a viabilização e
a maximização de oportunidades para os negros, dão transparência e eficiência a
um Estado que se propõe Democrático de Direito, como reza a nossa Constituição
Federal. Nesse sentido, o Desembargador tem razão quando diz que "o princípio da
isonomia deve ser analisado em perspectiva material, pois a aplicação pura e
simples da igualdade formal permitiria a perpetuação de heranças
discriminatórias históricas, que vêm desde a abolição da escravatura".
Enfim, se a isonomia deriva esta função primária e básica dos direitos
fundamentais, assegurando que o Estado trate seus cidadãos como cidadãos
fundamentalmente iguais, então, a sua função é ampliar os direitos à prestações
de bens sociais. Portanto, dentro desta visão pode-se discutir o problema das
quotas e o problema das ações afirmativas a compensar a desigualdade de
oportunidades. E tudo isso se encontra no Estatuto da Igualdade Racial.
Portanto, Sr. Presidente, defendemos a política de cotas raciais porque,
visivelmente, reconhecemos a existência de desigualdades raciais entre os
brasileiros. Através de que meios percebemos tais desigualdades?
a) Discriminação presumida:
A ausência ou a presença meramente simbólica de negros ou mulheres em certas
profissões em certos cargos ou em certos estabelecimentos de ensino, constituirá
indicação de discriminação presumida caso o percentual de presença desses grupos
em tais atividades ou estabelecimentos seja manifestamente incompatível com a
representação percentual do respectivo grupo na sociedade, (GOMES, 2001, p. 31,
apud SANTOS, 2005, p. 44)
b) Dados estatísticos: a.1. Trabalho; a.2. Educação (ler Ahyas Siss, 2003:143).
Basta olharmos os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e da
Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), para percebermos que as
diferenças raciais tendem a se perpetuar, caso não sejam empreendidas ações
voltadas a reverter o atual quadro, no qual as diferenças entre brancos e negros
impressionam: a média de 7,7 anos de estudos entre os brasileiros brancos se
contrapõe a 5,8 anos entre os brasileiros negros;
Enquanto em 1993, 11,2% da população branca de 25 anos ou mais de idade tinha 12
anos ou mais de escolaridade, enquanto a população negra, de mesma faixa etária,
tinha apensa 2,8%; em 2004, esses valores subiram para, respectivamente, 15,3% e
5,1%. Isso significa que, quanto mais andamos em direção aos grupos mais
escolarizados, menor a chance de encontrarmos um indivíduo negro.
Com efeito, os objetivos das cotas raciais são:
Reduzir as desigualdades raciais quanto ao acesso dos negros (as) ao Ensino Superior;
Promover a igualdade de oportunidade entre brancos e negros no mercado de trabalho formal;
Concretizar a democracia substantiva;
Dar oportunidade a negros (as) que serão modelos para outros negros das gerações futuras;
Corrigir os eixos estruturantes
da reprodução da desigualdade social, isto é, de raça e de gênero.A durabilidade
das cotas raciais, propomos que seja aplicada num prazo de 20 anos como
experiência, pois após duas gerações, poderemos avaliar o avanço da qualidade do
ensino básico: Fundamental e Médio.
Assim, o Estado estará assumindo a responsabilidade ao elaborar mecanismos
políticos de implementação da eqüidade, de cidadania plena, que levem à
democratização de fato da sociedade. Porque as desigualdades raciais e de
gênero, que se inscrevem na lógica das relações, podem e devem politicamente ser
dirimidos.
Partimos do principio de que as desigualdades tanto sociais quanto raciais são
construídas político e socialmente, ou seja, são desigualdades em relação. Nesse
contexto, portanto, medidas políticas não só podem como devem ser implementadas
como mecanismo corretivo dessas desigualdades.
O SR. PAULO CÉSAR PEREIRA DE OLIVEIRA
- Sr. Presidente, Sra. Ministra Matilde Ribeiro, Senador Paulo Paim, antes de
qualquer fala pública minha, tenho por hábito e por convicção fazer uma saudação
à ancestralidade africana no Brasil:
Ko tun ba ja deo
Ko tun oba
Ko si nkanse
Egun o paraka
Bo are
Ba ru
Oluseman Olukotun Olore Ogun
A gbe o.
A ancestralidade é a nossa via de identidade histórica. Sem ela, não sabemos o
que somos e nunca saberemos o que queremos ser. Esse momento poderia ser
qualificado como "estamos entre senhores, capitães-do-mato e novos negreiros".
Os senhores não preciso explicar quem são. Quanto aos capitães-do-mato, também
não. E os novos negreiros, hoje, não nos carregam mais nos tumbeiros, mas em
seus livros; sentem-se no direito de ser os únicos donos do saber acadêmico
quando se trata de escrever sobre negro; sentem-se ameaçados com o ingresso de
negros na universidade, com os negros passando a ser protagonistas do
conhecimento científico e a escrever sobre sua própria história, sobre sua
própria realidade, a partir do seu ponto de vista, para que, amanhã,
antropólogos ou sociólogos negros não cometam equívocos desses acadêmicos
brancos.
Em absoluto, não fomos nós que criamos o racismo; não fomos nós que dividimos
nada - a sociedade brasileira é dividida. Qualquer pessoa séria que andar por
qualquer cidade do País vai constatar a cisão, vai constatar onde estão os
negros e onde estão os brancos. E isso foi promovido pelo Estado.
Ora, o Estado não pode legislar sobre negro, mas pode fazer concessão a rede de
televisão para promover racismo no seu quotidiano. (Palmas.) O Estado
brasileiro não pode legislar sobre negro, mas pode armar uma tropa de elite para
subir os morros cariocas para assassinar negros. (Palmas.) São tantas e
tantas as ações desse Estado que não quer legislar sobre negro.
Sr. Presidente, Sr. Senador, eu gostaria que esse estatuto fosse tratado como
Estatuto do Negro. Do contrário - tivemos várias experiências desse tipo -, o
negro acaba pagando pedágio, ou seja, temos ir a reboque de movimento gay,
a reboque de movimentos outros que não atendem à questão específica e à
necessidade do povo negro. Por isso, vou tratá-lo sempre como Estatuto do Negro.
Sr. Presidente, gostaria de ceder parte do meu tempo, caso seja possível, ao Dr.
Hédio Silva Júnior, que não sei onde está agora - deve ter-se ausentado por um
minuto. Ele detém documentos fundamentais que comprovam categoricamente o uso do
Estado, e o Estado legislando, vários documentos em que a raça está explicitada.
Portanto, não é o Estatuto do Senador Paulo Paim que vai começar a citar negro,
por via do Estado.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. JOSÉ ROBERTO MILITÃO
- Sr. Presidente, não se trata de citaçãão negativa, mas de 2 ângulos da fala da
companheira Edna Roland que me incomodaram um pouquinho. Primeiro, o de que eu
teria abandonado a luta da população afrodescendente no Brasil, o que de fato
não é verdade; segundo, o de que eu estaria do lado errado.
Nos últimos anos, tenho militado com a responsabilidade de antigo integrante do
movimento negro e, especialmente, de cidadão do Brasil, País cuja população é
50% de afrodescendentes.
Se o Brasil legislar acolhendo a idéia de raça, ficarei ao lado de quem estou
lutando hoje, com sacrifício pessoal, a saber: a população afrodescendente, que
será prejudicada pelos efeitos colaterais dessa legislação.
"O que fazer?" - pergunta a Dra. Edna. Digo: ações afirmativas. E ações
afirmativas têm sido feitas no mundo inteiro. Vários oradores se referiram a
isso. No entanto, nenhum dos países aqui referidos - França, Canadá, Finlândia,
Austrália, Estados Unidos - disponibilizou recursos para as leis raciais. Ou
seja, nenhum desses países legislou para a raça humana.
É nesse sentido que tenho militado.
Obrigado, Presidente.
O SR. NELSON BARRETTO -
Bom dia.
Sr. Presidente, Deputado Arlindo Chinaglia, Sra. Ministra Matilde Ribeiro, Sr.
Senador Paulo Paim, Sras. e Srs. Deputados, participantes desta Comissão Geral,
represento a Ordem Terceira de São Francisco da Penitência.
O meu discurso escrito foi elaborado para ser proferido em 10 minutos. Portanto,
será resumido por mim, mas o deixarei com a Mesa, para que tome conhecimento de
seu inteiro teor.
O Estatuto da Igualdade Racial pretende impulsionar a corrida em favor de
melhores condições de vida aos grupos sociais negros e incentivar a adoção de
políticas públicas de ações afirmativas capazes de auxiliar na conquista de
direitos e na promoção da igualdade racial.
Na nossa opinião, a meta pretendida não será alcançada. Muito pelo contrário,
uma leitura desapaixonada do texto revela que o Estatuto é discriminatório e
representa um recuo em tudo que se conseguiu até hoje no Brasil. Por muitos
anos, os brasileiros moldaram-se na idéia de que vivemos em uma democracia e que
os diversos grupos sociais e raciais viviam harmoniosamente.
Afirmamos nosso apoio às políticas afirmativas desde que sejam políticas de
incentivo à promoção dos menos favorecidos, sejam brancos, sejam negros, mas
nada parecido com quotas raciais, pelo fato elementar de que são, obviamente,
inconstitucionais e fator de desagregação.
Será o fim do País que se orgulhava de sua miscigenação, que sabia que ninguém é
inteiramente branco ou inteiramente preto, que tinha orgulho de seu largo
ingrediente de cores e culturas. Seremos transformados num país bicolor, num
país não de brasileiros simplesmente, mas de brasileiros negros e de brasileiros
brancos, porque cremos que a questão principal do Estatuto da Igualdade Racial é
a de que os brasileiros assumam uma raça, a tão festejada classificação racial,
a qual será feita pelo critério da auto-atribuição, ou seja, pelo critério
declaratório da parte interessada. Após a opção de raça, o Estatuto obriga que,
em todos os documentos oficiais - prontuários médicos, Certidão de Nascimento,
censo escolar, pedidos de aposentadoria, cartão do SUS, entre outros -, haja a
informação sobre a cor do cidadão, fazendo assim a perfeita distinção entre
negros e brancos.
O Brasil cristão não quer e não aceita essa divisão entre irmãos.
Outro caminho alternativo seria o Governo apoiar trabalhos sociais como o
desenvolvido, há 388 anos, pela venerável Ordem Terceira de São Francisco da
Penitência, que oferece educação e saúde à população carente de forma totalmente
gratuita, sem qualquer ajuda do Erário e, principalmente, sem qualquer caráter
discriminatório, na forma determinada pela Constituição Federal.
Nossa preocupação no que diz respeito à implementação do referido estatuto não
ocorre apenas porque ele autoriza a prática do racismo no nosso ordenamento.
Refiro-me ao fim da garantia constitucional do direito de propriedade. Isso já
ocorreu com a nossa Ordem. De um dia para o outro, viu-se ela desamparada de
seus direitos seculares, devido a uma reivindicação quilombola, amparada no
Decreto nº 4.887, de 2003, do Presidente Lula, que o Estatuto da Igualdade
Racial retoma integralmente, agora como lei emanada do Congresso Nacional, no
Capítulo V - Da Questão da Terra.
Somos favoráveis ao que estabelece a Constituição: são reconhecidos e recebem o
título de propriedade aqueles remanescentes de quilombolas que estejam ocupando
suas terras.
Sr. Presidente, desde 1704 a Ordem Terceira está no Rio de Janeiro, com todos os
documentos. Nunca soubemos da existência de qualquer quilombo naquela região,
bem no centro do Rio de Janeiro. Somos favoráveis aos quilombos verdadeiros, mas
não aos falsos. (Manifestação do Plenário.) Mesmo assim, demarcaram uma
área que contempla quase a totalidade dos imóveis de nossa instituição, para
proceder à desapropriação. E o pior é isto: os imóveis são dedicados a manter
nossa escola e colégio, bem como o Projeto Humanização do Bairro, que oferece à
população carente 18 cursos profissionalizantes, também em regime de total
gratuidade.
Justiça é dar a cada um o que é seu. Dar aos que se autodeclaram donos, sem
prova nem documentação, aquilo que pertence aos legítimos proprietários é uma
grande injustiça.
Manifestamos nosso receio de que o Estatuto da Igualdade Racial seja o detonador
de uma série de males, que ameaça o futuro de nossa Pátria, a Terra de Santa
Cruz, pois, sendo lei, dará legalidade aos injustos princípios aqui denunciados,
em confronto direto com os ditames constitucionais, a própria ordem jurídica e o
Direito Natural, fonte de toda a justiça.
Muito obrigado, Sr. Presidente. (Palmas.)
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PRONUNCIAMENTO ENCAMINHADO PELO ORADOR |
Meu nome é Nelson Barretto, sou jornalista e autor do livro "A Revolução
Quilombola". Estou aqui representando a Venerável Ordem Terceira de São
Francisco da Penitência, com sede no Rio de Janeiro.
O Estatuto da Igualdade Racial pretende impulsionar a corrida em favor de
melhores condições de vida aos grupos sociais negros e incentiva a adoção de
políticas públicas de ações afirmativas capazes de auxiliar na conquista de
direitos e na promoção da igualdade racial.
A meta pretendida não será alcançada. Muito pelo contrário.
Uma leitura desapaixonada do texto revela que o Estatuto é discriminatório e um
recuo em tudo que se conseguiu até hoje no Brasil. Por muitos anos os
brasileiros moldaram-se na idéia de que vivemos numa democracia e que os
diversos grupos sociais e raciais viviam harmoniosamente.
Classificação racial pela auto-atribuição.
Cremos que a questão principal do Estatuto da Igualdade Racial é exigir que os
brasileiros assumam uma raça, a tão festejada classificação racial, a qual será
feita pelo critério da auto-atribuição, ou seja, pelo critério declaratório da
parte interessada.
Após a opção pela raça, o Estatuto obriga que todos os documentos oficiais
contenham a informação sobre a cor do cidadão: prontuários médicos, certidão de
nascimento, censo escolar, pedidos de aposentadoria, cartão do SUS, dentre
outros, fazendo assim a perfeita distinção entre negros e brancos.
E de fácil constatação, que esta opção pela raça, gerará obrigatoriamente a
criação de uma divisão racial na população brasileira, como a que teve origem no
racismo científico do fim do século XIX e resultou na noção de raças inferiores
e superiores, servindo de inspiração para a criação de regimes de "apartheid",
como o da África do Sul.
O Estatuto gerará o contrário do que se pretende e será fator de desagregação.
As normas e medidas contidas neste estatuto, na forma em que pretendem ser
aprovadas, estarão no reverso do pretendido e semearão conflitos étnicos no
futuro.
Afirmamos nosso apoio às políticas afirmativas, desde que essas sejam políticas
de incentivo à promoção dos menos favorecidos, sejam eles brancos ou negros, mas
nada parecido com quotas raciais, pelo fato elementar de que são, obviamente,
inconstitucionais e fator de desagregação.
Voltando ao tópico mais importante, ou seja a opção pela raça, resta claro que o
Estatuto da Igualdade Racial deixará para trás, de uma vez por todas, o Brasil
que conhecemos e criará um outro país, cindido racialmente, em que a noção de
raça, base de todo racismo, estará no centro de tudo, quando deveria estar
definitivamente superada.
Será o fim do país que se orgulhava de sua miscigenação, que sabia que ninguém é
inteiramente branco ou inteiramente preto, que tinha orgulho de seu largo
ingrediente de cores e culturas. Seremos transformados num país bicolor, num
país não de brasileiros simplesmente, mas de brasileiros negros, e brasileiros
brancos.
Ainda neste sentido, de extrema importância para a manutenção da nossa cultura
brasileira, é permitir ao cidadão deixar de pertencer a uma cultura, que é essa
cultura brasileira, para passar a ser identificado por características físicas,
o que até então era repudiado, constituindo-se inclusive em crime inafiançável.
Como já mencionado, a pretexto de promover a igualdade racial, o estatuto é
racista, legaliza a discriminação, beneficiando apenas o cidadão negro em
detrimento do branco, reservando-lhe a manutenção e a extensão do sistema de
quotas, que além de serem aplicadas nas universidades, agora serão também
obrigatoriamente implementadas no serviço público, em programas de TV, filmes e
anúncios publicitários e na iniciativa privada em geral.
Jean-Pierre Dupuy, professor de filosofia social e política na Universidade de
Stanford (Califórnia) escreveu que "a História nos ensina que o racismo é um
produto patológico, perverso, de um ideal igualitário".
Analisando o fato de que em nosso País o racismo não existe, comentou: "Os
brasileiros, que afirmam que entre eles não há racismo, resumem a situação
contrapondo ao slogan racista norte-americano 'diferentes mas separados' a
máxima que, segundo eles, define melhor a sociedade brasileira: 'diferentes mas
unidos'."
"Diferentes, mas unidos". Esta foi realmente, durante séculos, a máxima que
predominou na sociedade brasileira. O problema racial graças a Deus não existe
no Brasil.
Graças a um fenômeno muito interessante, temos no Brasil uma miscigenação das
raças. Somos um povo com uma diversidade grande de etnias formando um Brasil
diversificado e rico, onde não há raça, pois a única raça existente,
entrelaçada, é a brasilidade, formada pela junção de povos que caracteriza nosso
País como miscigenado.
O Brasil cristão não quer e não aceita a divisão entre irmãos. É o próprio Deus
quem abençoa essa miscigenação, essa raça brasileira. Foi em 1717 que, nas águas
benditas do rio Paraíba, três pescadores encontraram o corpo da imagem e depois
a sua cabeça, da imagem milagrosa de Nossa Senhora Aparecida, Nossa Padroeira,
uma Virgem morena, uma Virgem negra. Dom Pedro I a caminho do Ipiranga consagrou
a nossa Independência sob sua proteção. E o Papa São Pio X elevou a Virgem
Aparecida como Rainha e Padroeira do Brasil. Uma devoção popular em que milhões
de peregrinos vão rezar em Aparecida para essa mãe de todos os brasileiros, para
pedir proteção e para agradecer os favores alcançados.
Cotas para alunos carentes sejam eles negros ou brancos.
A tão polêmica questão das quotas das universidades, por certo teve como
beneficiário o povo afrobrasileiro, mas nossa instituição, a Venerável Ordem
Terceira de São Francisco da Penitência do Rio de Janeiro, de caráter
educacional, acredita que enquanto a escola pública não for suficientemente boa
para todos, a melhor alternativa seria a possibilidade de bolsas de estudos,
dadas pelo governo, em escolas particulares para bons alunos carentes, sejam
eles negros ou brancos.
Outro caminho alternativo seria o governo apoiar trabalhos sociais, como o
desenvolvido há 388 anos pela Venerável Ordem Terceira de São Francisco da
Penitência, que oferece educação e saúde a população carente, de forma
totalmente gratuita, sem qualquer ajuda do erário e, principalmente, sem
qualquer caráter discriminatório, na forma determinada pela Constituição
Federal.
Respaldando nossa posição acima no que concerne a questão das quotas das
universidades, temos o fato contraditório de esta conduta não considerar a
igualdade entre um negro pobre e um branco pobre.
Note-se que não se trata de impedir que haja ações afirmativas, ou quotas para
tal grupo marginalizado, nem muito menos, impedir a existência de políticas
universalistas - colorblind -, mas, tão só, propor políticas que levem em conta
o racismo, posto que a experiência histórica no Brasil e em outros países mostra
a inépcia de políticas universalistas para o combate do racismo.
É preciso, por justiça, manter os princípios constitucionais e o direito de
propriedade.
Diante das alegações aduzidas, manifestamos aqui nossa expectativa na manutenção
dos princípios constitucionais, para que se possa assim possibilitar o
crescimento da sociedade brasileira, incluindo-se para tanto as ações
afirmativas que visam manter o ideal de segurança e estabilidade da ordem
jurídica, ou seja, o Estado de Direito.
Nossa preocupação no que diz respeito a implementação do referido Estatuto, não
é apenas porque ele autoriza a prática do racismo em nosso ordenamento.
Refiro-me ao fim da garantia constitucional do direito de propriedade.
Isso já ocorreu com nossa Ordem. De um dia para o outro, viu-se ela desamparada
de seus direitos seculares por uma reivindicação quilombola, amparada no decreto
4887/2003 do Presidente Lula, que o Estatuto da Igualdade Racial retoma
integralmente, agora como lei emanada do Congresso Nacional, no capítulo V, "Da
Questão da Terra".
Relato sumário dos fatos ocorridos com a Ordem Terceira.
Após 388 anos de pleno e regular funcionamento no Rio de Janeiro, desenvolvendo
importante trabalho de assistência social, sobretudo na área da educação e
saúde, a Venerável Ordem de São Francisco da Penitência, foi surpreendida com
uma notificação do INCRA que pretendia, por um singular ato administrativo,
tornar caduca nossas escrituras e desapropriar os bens da Ordem, na região
central da cidade do Rio de Janeiro, e fazer delas uma comunidade de
remanescentes de quilombos.
Nossa multissecular instituição, no curso de seus 388 anos de atividade, recebeu
em 1704 um importante legado do Padre Dr. Francisco da Motta.
Através de testamento, reconhecido pela Cúria do Rio de Janeiro, que à época era
responsável pela guarda dos testamentos, bem como reconhecido por inúmeros
livros históricos, os quais contam a história da Cidade do Rio de Janeiro,
contemplou nossa instituição, com um trapiche localizado na Rua Funda, 8 casas e
terrenos na atual freguesia de Santa Rita.
Em 1821, em razão do aterro sofrido, para abertura de ruas na região o Príncipe
D. João VI, indenizou a Ordem da Penitência com mais 8 braças e meia de terras,
dando o domínio útil das mesmas adperpetum, documento que está arquivado
em nossa instituição.
Pois bem, estes dados históricos incontestáveis confundem-se com a história da
Cidade do Rio de Janeiro e da Ordem da Penitência, restando clara e pacífica a
propriedade dos imóveis e do domínio útil da mesma, em diversos terrenos na
região.
Entretanto, em janeiro de 2006, a Ordem da Penitência foi informada da
propositura do processo administrativo perante o INCRA/RJ, para reconhecimento,
identificação e demarcação de terras do suposto quilombo da Pedra do Sal.
Gostaríamos aqui de frisar que o suposto quilombo, que conta com cinco pessoas,
entre os quais apenas dois são conhecidos, está localizado no centro da cidade
do Rio de Janeiro, na Zona Portuária, local de grande movimentação desde 1704,
quando a Venerável Ordem Terceira lá chegou.
De 1704 para cá, por conta da invasão holandesa tivemos que destruir e
reconstruir nosso trapiche e a Igreja de São Francisco da Prainha, hoje tombada
pelo IPHAN.
Construímos a Escola Dr. Padre Francisco da Motta e Colégio Sonja Kill, que
juntos oferecem educação e alimentação da creche ao ensino fundamental, sendo
beneficiados atualmente 1070 crianças por dia, tudo em caráter de total
gratuidade.
Nunca soubemos da existência de qualquer quilombo naquela região. Aliás, os
moradores da região também desconhecem, tudo comprovado através de estudos
desenvolvidos por antropólogos e historiadores.
Mais. No Relatório Técnico de Demarcação e Identificação (RTDI), as próprias
historiadoras reconhecem que os fundadores do suposto quilombo vieram de outros
estados, moraram em outros bairros, não foram escravos e que, quando chegaram ao
Rio de Janeiro, foram morar no Morro da Providência!
Mesmo assim, demarcaram uma área que contempla quase a totalidade dos imóveis de
nossa instituição, para proceder a desapropriação. Os imóveis são dedicados a
manter nossa escola e colégio, além do Projeto Humanização do Bairro, que
oferece a população carente 18 cursos profissionalizantes, também em regime de
total gratuidade.
Oferecemos ainda a população da Zona Portuária, atendimentos médicos, urna
biblioteca comunitária, a única na região, escola de música, um centro cultural
e um espaço de convivência, para que os moradores possam realizar festas,
palestras, enfim interagir.
Como podemos acreditar que uma legislação que permite a desapropriação de
imóveis que pertencem há mais de 300 anos a uma instituição, e por ela são
construídos e mantidos, e que está atendendo aos princípios de nossa Carta
Magna, beneficiando cerca de 40.000 pessoas com sua obra assistencial, seja
destruída, para que cinco pessoas, que não mantém laços com a região recebam a
propriedade de mais de 200 imóveis?
Justiça é dar a cada um o que é seu. Dar aos que se autodeclaram donos, sem
prova nem documentação, aquilo que pertence aos legítimos proprietários, é uma
grande injustiça.
Manifestamos aqui nosso receio de que o Estatuto da Igualdade Racial seja o
detonador de uma série de males, que ameaça o futuro de nossa Pátria, a Terra de
Santa Cruz, pois sendo lei, dará legalidade aos injustos princípios aqui
denunciados, em confronto direto com os ditames constitucionais, à própria ordem
jurídica e ao Direito Natural, fonte de toda a Justiça.
O SR. GERSON CÉSAR LEÃO ALVES
- Fico muito feliz em estar neste evento,
até porque se tem tratado muito sobre a população preta e a população parda, mas
os pardos normalmente não são chamados para dar a sua opinião a respeito da
questão. Geralmente, as pessoas decidem pelos pardos. Isso é muito interessante.
Há 3 pontos no Estatuto da Igualdade Racial relacionados diretamente com essa
questão. O Estatuto classifica todos os pardos como negros ou afrodescendentes.
Ora, sabemos que isso, pelo menos na região amazônica, que não é pequena - mais
do que a metade do território nacional -, não faz sentido. Na região amazônica,
ser pardo significa, antes de tudo, ser um mestiço caboclo, cuja identidade não
está baseada na afrodescendência. A sua identidade está baseada no encontro da
cultura indígena nativa com a cultura dos povos europeus.
Essa política, por sinal, tem causado profundo prejuízo para o trabalho que tem
sido feito de combate ao racismo e à discriminação contra a população mestiça
cabocla na Amazônia.
O Estatuto também vai contra a Declaração de Durban, que, nas Questões Gerais,
Item 86*, fala sobre as populações mestiças, nascidas do encontro de etnias
diversas. A principal forma de negar essas populações, algo que tem ocorrido, é
dizer que elas não existem: "Não existe mestiço. Não existe pardo".
Existe uma propaganda para evitar que a pessoa se assuma como parda. Dizem que
"pardo" vem de "pardal", mas a palavra pardo vem do latim pardus, que
significa leopardo. É a desconstrução da identidade, para que a pessoa não se
assuma como mestiça ou parda.
Um terceiro ponto é o acirramento de algo que já está ocorrendo na Amazônia. Há
um conflito racial entre negros e mestiços caboclos. A guerra racial não vai ser
provocada pelo Estatuto, não. Ela já começou.
Recentemente - por sinal, isto já está em site do Governo -, foi
elaborada uma carta no Encontro Estadual da População Negra e das Comunidades de
Terreiros de Roraima, a fim de que fosse cancelada a lei que estabelece o Dia do
Mestiço, aprovada nos Estados do Amazonas e de Roraima. Para nos protegermos
dessa política de destruição da nossa identidade, tivemos que criar uma
legislação. O movimento mestiço no Amazonas, em Roraima e na Paraíba conseguiu
aprovar leis estaduais que criam o Dia do Mestiço.
É preciso que as pessoas aprendam a respeitar o modo como as outras pessoas se
identificam. No Amazonas, esse conflito ocorre principalmente em relação à
população cabocla. Na Amazônia, é bom frisar, a escravidão foi principalmente
indígena e cabocla. E mais: a escravidão indígena, em certo sentido, era
muitíssimo mais violenta do que a escravidão empreendida contra o negro, porque
o indígena era um escravo nacional e o africano era um escravo importado. Se um
índio era morto bastava substituí-lo por outro. Já o africano, não, custava
caro, porque sobre ele incidia imposto, taxa.
A violência contra as populações indígena e cabocla escravizadas na Amazônia foi
terrível, e essa política que classifica pardos como negros praticamente
transforma os caboclos da Amazônia em negros, o que não tem ligação histórica
com a formação cultural deles. Isso é uma espécie de etnicismo estatístico. Se
não me engano, no site da SEPPIR, nas estatísticas sobre a população
negra da Amazônia, somam-se pretos e pardos. Mas pardos e caboclos não existem
só na Amazônia. À medida que nos afastamos do litoral, na direção da fronteira,
a população mestiça vai assumindo cada vez mais as características de
descendentes de índios.
É bom frisar, no que se refere a identificar pardo como afrodescendente, que, no
Amazonas, está havendo conflitos entre mulatos e negros. Uma jovem mulata foi
agredida por assumir ser mulata. Os mulatos também vêm sofrendo esse processo,
ouvem dizer que "mulato" vem de "mula". Mas nós sabemos que a palavra mulato vem
de mulu, que significa híbrido, ou vem da palavra árabe muwallad,
que significa mestiço.
Eu sou mulato. Essa é a minha identidade, e eu exijo que me respeitem pela minha
opção.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE
(Deputado Arlindo Chinaglia) - Eu sugiro a todos
aqueles que porventura não tiveram tempo de expor a sua idéia por inteiro que o
façam por escrito. Alguns dos convidados estão pedindo novamente a palavra, mas
isso não é possível. Peço que compreendam o ritmo dos trabalhos. Há muita gente
para falar, e em seguida falarão os Deputados. Portanto, meu compromisso é no
sentido de tomar as providências para que as idéias cheguem às Deputadas e aos
Deputados.
A SRA. ELDA CASTRO DE SÁ
- Bom dia a todos.
Gostaria de, na pessoa do Sr. Presidente, cumprimentar os integrantes da Mesa.
Sou representante da Associação dos Caboclos e Ribeirinhos da Amazônia e venho a
esta tribuna fazer um apelo aos Parlamentares, pois nós que somos da Amazônia,
que representa cerca de 50% do território brasileiro, hoje vivemos sem políticas
públicas voltadas para os caboclos e ribeirinhos. Classificam-nos hoje como
negros, de acordo com o Estatuto da Igualdade Racial. Somos descendentes de
europeus e brancos.
Não nos queiram impor uma identidade. Segundo a Constituição Federal, a
autodeclaração é um direito de cada pessoa.
A guerra começou na Amazônia. Para nossa infelicidade, índios, negros, mestiços,
caboclos e ribeirinhos estão em pé de guerra, porque o Governo Federal nos impõe
uma identidade.
Sr. Presidente, quero aqui manifestar o meu repúdio ao Governo Federal, porque
temos identidade própria.
Vocês que são do Sul e do Sudeste visitem a Amazônia para conhecer a nossa
realidade. Não queremos ser colônia de Brasília, queremos ser parte de Brasília,
da Federação brasileira.
Os negros na Amazônia saíram de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, de São Paulo,
de Brasília. Assim é formado o movimento negro na Amazônia. Saí do meu Estado
para vir a Brasília fazer essa denúncia.
É preciso que haja políticas para os negros, mas não é preciso destruir outras
identidades.
Deve haver reparação, é claro, pois o povo negro foi trazido como escravo para
este País, mas não é preciso dizimar os caboclos que vivem na Amazônia e lutam
pela preservação ambiental.
O aquecimento global é cada vez maior, e nós, os povos da floresta, lutamos pela
preservação da natureza. Se não cuidarmos da nossa floresta, a nossa região se
tornará uma savana, resultado do aquecimento global e da agressão à camada de
ozônio.
É preciso que nossa identidade seja respeitada. Quando vou às conferências,
comungo com o movimento negro, com o movimento quilombola. Concordo com que é
preciso estarmos à frente de movimentos que lutam pela igualdade, mas pela
igualdade para todos, sem excluir ninguém. Aquele que foi oprimido não pode se
tornar opressor. Somos todos cidadãos brasileiros e merecemos respeito.
Muito obrigada. (Palmas.)
O SR. SEBASTIÃO RODRIGUES
MACHADO NAYT JÚNIOR - Sr. Presidente Arlindo Chinaglia, Sra. Ministra
Matilde Ribeiro, Senador Paulo Paim, companheiras e companheiros, quero saudar
esta plenária e esta Casa em nome de Antonica Bernarda, negra do ventre livre,
matriarca do Quilombo Campinho da Independência, terra de onde viemos, local de
nosso nascimento, fonte da nossa resistência.
É um privilégio estar hoje nesta Casa, repleta de militantes do movimento negro
organizado, porém, escassa de Parlamentares que nela têm sua fonte de trabalho.
Mas é um privilégio maior juntos levantarmos nossa voz em favor de uma
ferramenta que representará muito para nós.
O Estatuto da Igualdade Racial, Senador Paulo Paim, com quem nos congratulamos
por isso, é um compêndio de uma série de leis que já existem. O Estatuto cita o
art. 68 do ADCT, que fala da regularização fundiária das comunidades
quilombolas. E não há qualquer invenção no texto do Estatuo, só a necessidade e
o desejo de que seja aquela previsão constitucional efetivamente implementada.
O Estatuto da Igualdade Racial fala da política de acesso à universidade através
de cotas para negros, cotas etno-raciais. O Rio de Janeiro é exemplo bastante
significativo do acerto dessa política, uma vez que no ano passado formamos a
primeira turma de cotistas negros na UERJ. Este ano temos mais de 6 mil e
pretendemos, no próximo ano, chegar a 10 mil cotistas negros nas 2 universidades
públicas de nosso Estado.
Portanto, o Estatuto da Igualdade Racial não fala de novidade. E esta Casa,
Presidente Arlindo Chinaglia, tem o compromisso cidadão de trazer à pauta - essa
responsabilidade é de V.Exa., na condição de Presidente desta Casa - de votações
o texto do Estatuto.
Nós do movimento negro do PMDB, o PMDB Afro-Brasileiro, estamos imbuídos do
compromisso de buscar o apoio de cada um dos Parlamentares do nosso partido,
para tentar convencê-los e denegri-los. É exatamente isto, "denegrir", pois
denegrir é tornar negro, tornar escuro, o que não é algo ruim. Negro não é ruim.
Somos bons. (Palmas.) Portanto, queremos denegrir os Deputados e fazer
com que eles entendam que é necessária a aprovação desse estatuto, uma
ferramenta, que transita na Câmara e no Senado desde 2001.
Muitos que nos antecederam falaram sobre a existência ou não de racismo e
desigualdade. Dissemos que somos oriundos do interior do Estado do Rio de
Janeiro. Portanto, sendo do Estado do Rio de Janeiro, não há quem possa falar
com maior autoridade sobre desigualdade senão os que conhecem os nossos
presídios. Somos mais de 84% nas instituições carcerárias. Não há quem possa
falar com mais autoridade senão os que conhecem as comunidades faveladas daquele
Estado, nas quais o negro representa mais de 80%. E 80% de qualquer coisa é
quase tudo!
Por fim, não há quem possa falar com mais autoridade sobre o tema senão os que
conhecem a prostituição infanto-juvenil, que atinge as negras com menos de 13
anos, em proporção que ultrapassa 72%.
Portanto, estamos falando em números.
Não há quem possa falar com maior autoridade senão os que conhecem os que são
vitimados pelas doenças oriundas da anemia falciforme, que mata, em cada mil
neonatos, 1 negra. São índices de epidemia.
Lamentamos que não haja número suficiente de Parlamentares que possam aprovar
esse estatuto. Mas reafirmo que o Estatuto da Igualdade Racial não é nenhuma
empáfia e não manifesta qualquer discriminação, senão uma discriminação às
avessas, sim, porque disso precisamos.
É necessário fazermos uma discussão política, irmos às bases, procurarmos os
nossos Parlamentares para dizer-lhes que terão o nosso voto se votarem no que
queremos. Isso é necessário. Vamos nos mobilizar. Nós do PMDB Afro-Brasileiro
temos esse compromisso, vamos levá-lo a termo.
Ministra Matilde Ribeiro, conte conosco, conte com a nossa contribuição. Senador
Paulo Paim, conte conosco como aliados. Somos todos irmãos.
Obrigado. (Palmas.)
O SR. JOSÉ VICENTE - Exmo.
Sr. Deputado Arlindo Chinaglia, Digníssimo Presidente da Câmara dos Deputados;
Exma. Sra. Matilde Ribeiro, Ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da
Igualdade Racial; Exmo. Senador Paulo Paim; Sras. e Srs. Deputados, senhoras e
senhores, saúdo os presentes e trago as homenagens da Universidade da Cidadania
Zumbi dos Palmares, de seus alunos, de seus professores e de seus funcionários.
Venho dizer da minha satisfação pessoal por estar nesta tribuna e externar nosso
pensamento acerca desse tema extremamente importante para todos nós,
brasileiros.
Sou do Estado de São Paulo, o maior da Federação, onde se concentra, em maior
proporção, a população negra em nosso País, 37%, tanto no interior do Estado
quanto na Capital.
Se república e democracia significam representação social dentro da
representação sociopolítica, temos um defeito seriíssimo, pois em nosso Estado,
nossa Federação, os 50% da população negra não estão representados na estrutura
sociopolítica e econômica.
No meu Estado, Sr. Presidente, na maior universidade da América Latina, a
Universidade de São Paulo, que possui 5.400 professores, há 5 professores
negros. No meu Estado, São Paulo, onde há a maior concentração de negros da
Federação, entre os quase 300 Desembargadores não há 1 negro; entre os quase 500
Procuradores de Justiça não há 1 negro; entre as centenas de oficiais da Polícia
Militar não há 1 negro, entre os Delegados de Polícia não temos mais que meia
dúzia de negros e entre as 500 maiores empresas que praticam responsabilidade
social no Estado de São Paulo os negros representam apenas 3,5% dos cargos de
direção.
Esse é o estado de coisas que nos coloca diante da constatação de que estamos
com 119 anos de atraso, ainda discutindo esse tema, esse dilema.
A República que não teve povo é uma República que também não tem negro.
Continuamos em um País cindido entre os negros que não têm nada e todos os
demais, que possuem tudo. Continuamos a ser um País cindido e desigual, e o
negro continua onde sempre esteve: no porão, separado e desigual.
Se quisermos, como Nação, dar um passo significativo e preparar o terreno para
virarmos essa página, é indispensável que tenhamos no Estatuto da Igualdade
Racial uma ferramenta oportuna e necessária, até porque este é um jogo de
perde-perde. Se estamos dizendo que este País precisa ser plural, é
indispensável que os instrumentos permitam essa pluralidade.
Se estamos dizendo que o mundo global precisa de capital humano, é burrice jogar
metade dos talentos na lata do lixo. Se estamos dizendo que precisamos de um
país melhor para as nossas futuras gerações, é indispensável que convirjamos
todas as nossas energias no sentido de fazer com que este país que queremos
inicie a sua construção a partir deste momento.
A Universidade da Cidadania Zumbi dos Palmares é uma das grandes realizações da
sociedade civil, Sr. Presidente. Talvez os dados desse tema fiquem especificados
no valor da nossa representação estatística. Dos 1.600 jovens da universidade,
90% são negros autodeclarados, a maior proporção de jovens negros na história do
ensino superior de toda a América do Sul; dos seus 90 professores, 37% são
doutores, mestres, especialistas negros, a maior proporção de professores negros
numa instituição de ensino superior de toda a América do Sul; e dos 1.600
alunos, 38% encontram-se empregados em estágios e treinos de Executivo Júnior
nas 10 maiores empresas do sistema financeiro do nosso País.
Ou seja, a sociedade civil está fazendo a sua parte, e os Parlamentares podem
dar um passo significativo no sentido de consolidar essa necessidade e esse
desejo legítimo do negro brasileiro.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. HEDIO SILVA JÚNIOR - Sr.
Presidente, gostaria de passar às mãos de V.Exa. 7 cadastros públicos nos quais
os brasileiros são classificados racialmente.
Vou citar só um: o formulário das Forças Armadas. Cada vez que um brasileiro se
alista num dos ramos nas Forças Armados, é classificado da seguinte forma:
branco, moreno, pardo-claro, pardo-escuro ou preto.
Sete cadastros públicos impõem identidade racial aos brasileiros.
Gostaria de dizer aos órgãos e às viúvas - algumas já inclusive idosas - da
democracia racial que tenham a dignidade de atravessar as ruas e dizer que as
Forças Armadas "racializam" o Brasil, que o formulário do registro civil "racializa"
o Brasil; que o cadastro de crianças posto à disposição nas Varas da Infância e
da Juventude "racializa" o Brasil.
Ninguém tem a dignidade de fazer essa afirmação. Há quem venha aqui apresentar
esse único argumento capenga, que não pára em pé, e, o que é pior, é desleal. Há
gente que, pela idade, já deveria ter mais dignidade num debate público como
este. (Palmas.)
O Estatuto da Igualdade Racial não vai fazer mais do que as Forças Armadas fazem
há séculos no Brasil. Que tenham a coragem de atravessar a rua e dizer isso ao
Exército, ou então, reconheçam que não há um único argumento tão consistente
quanto o Estatuto da Igualdade Racial.
Muito obrigado. (Palmas.)
A SRA. MARIA JOSÉ DE ALMEIDA
LIMA - Bom-dia a todos.
Cumprimento a Mesa e informo ao Dr. Hedio que, se precisar de mais tempo, eu lhe
concederei.
Neste momento, temos de aproveitar este espaço para debater, unidos. São Paulo
tem aqui representantes dignos. Já passamos por um seminário. Tudo o que lá foi
discutido está muito bem representado aqui pelo Dr. Hedio. Nós, mulheres,
parabenizamos a Sra. Edna Roland, que aqui nos representa.
Mulheres negras, o Governador do Rio de Janeiro disse que nós somos fábricas de
marginais. Temos de nos unir e mostrar ao Brasil que estamos à frente desse
debate. Nossos filhos e netos dependem do debate que hoje acontece no Brasil.
Temos obrigação, neste momento, de lutar por essa causa. Seremos cobradas pelos
nossos netos, assim como estamos cobrando de quem veio antes de nós.
O debate está ótimo. Hoje estamos falando de negros. Que todos se juntem quando
quiserem falar das suas causas. Parabenizamos o pessoal do Amazonas, mas, neste
momento, o debate é de negros.
Muito obrigada. (Palmas.)
O SR. EDMILSON SOUZA - Bom-dia,
companheiras e companheiros, todos os presentes. Gostaria de dizer-lhes que é
muito importante este debate. Percebemos que o Brasil ainda precisa de muitas
discussões como esta.
Gostaria de parabenizar o companheiro Paulo Paim pela iniciativa e dizer que
hoje existe uma realidade diferente de algumas coisas faladas aqui. As pessoas
que pensam que nós não precisamos de um estatuto devem circular mais pelo
Brasil. Basta visitar qualquer presídio em qualquer lugar do País para verificar
onde está a nossa juventude, não porque os jovens tenham nascido marginais, não
porque eles queiram estar lá, ou porque tenham sido colocados lá.
Para aqueles que acreditam que não precisamos de um estatuto, basta circular
pelas portas das empresas, na madrugada, e verificar que milhares de irmãos
estão à procura de emprego e, na maioria das vezes, voltam para casa devido à
cor da pele. Para aqueles que consideram que não precisamos de estatuto, basta
verificar a composição das Casas Parlamentares, do Judiciário e do Executivo.
Por isso não precisamos nos alongar muito na defesa da importância do Estatuto.
Gostaria de fazer duas propostas. A primeira é incluirmos, Senador Paulo Paim, a
questão da cultura. Citarei 3 aspectos que considero importantes: colocar no
texto, por intermédio do MINC, a valorização e o reconhecimento da ação dos
mestres griôs em todo o Brasil. Esses negros velhos, contadores de histórias,
dominam o conteúdo acumulado durante todos esses anos. Se eles forem embora sem
nenhum registro, vamos perder essas histórias, o que vai enfraquecer a nossa
cultura.
Gostaria de tornar realidade essa inclusão. É preciso incluir ações voltadas
para a valorização das atividades artísticas que resgatam a cultura
afro-brasileira: jongo, samba de umbigada e tantas outras. Um item do projeto
cita os mestres de capoeira. Precisamos ampliar essa inclusão, para poder
garantir uma presença maior.
É preciso discutir as leis de incentivo à cultura neste País, a fim de que haja
uma parcela destinada aos projetos voltados para o resgate da nossa tradição e
das nossas manifestações culturais. Infelizmente, muitos projetos ainda são
financiados por leis de incentivo estaduais e municipais, não só federal, com
conteúdo preconceituoso e discriminatório. Temos de entrar nessa briga para
dizer que esses recursos, que são públicos, devem ser utilizados para garantir o
resgate e a preservação da memória e da cultura do povo negro no Brasil.
Era isso o que tinha a dizer.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. JOSÉ CÂNDIDO - Boa-tarde, Sr.
Presidente, Ministra, Senador, líderes de movimentos presentes neste encontro.
Ouvi, com bastante atenção, todas as manifestações a favor e em contrário, além
das preocupações.
Proponho-me a falar em nome da Assembléia Legislativa, até porque, na Frente
Parlamentar criada naquela Casa, é acirrada a discussão não apenas sobre o
Estatuto, mas sobre todos os momentos de discriminação.
Por causa do avançado da hora, não quero fazer um discurso. Em cima dessas
reflexões já feitas, levanto algumas considerações e preocupações.
A Universidade Zumbi dos Palmares, por intermédio do seu orador, José Vicente,
mostra claramente a capacidade do cérebro do negro quando tem oportunidade de
usá-lo.
Há muitos anos, o EDUCAFRO vem descobrindo talentos, fazendo com que a
comunidade negra desperte. Felizmente, desperta em Cuba, um país que respeita a
vocação e a capacidade de cada um. Boa parte dos alunos da EDUCAFRO vão para
fora do País e voltam universitários, porque lá têm oportunidades.
Segundo pesquisas, na Assembléia Legislativa, tenho a responsabilidade de
representar 50% do povo paulista. O Prof. José Vicente referiu-se a 37%, mas vou
mais longe: São Paulo, enfim, é um Estado negro.
A vários estatutos lembrados anteriormente foram elaboradas algumas emendas, as
quais simplesmente foram discutidas e votadas. Por que o Estatuto da Igualdade
Racial está em pauta há tanto tempo e ainda é caso de discussão, de debate, de
mais discordância do que concordância?
A respeito de cota, recentemente, numa conversa, o Cônsul de Cuba disse uma
frase que ficou gravada no meu subconsciente: "Lá em Cuba, a população negra
é mais ou menos semelhante à do Brasil: quase 50%. Em Cuba, lutamos por cotas,
só que agora ninguém mais se refere a cotas, porque já igualamos".
Realmente o Cônsul está certo: a maioria das personalidades que representa
aquele país é formada por negros. Ministros, doutores, atletas representam o
país de igual para igual com outras nações.
O povo branco racista do Brasil pode continuar preocupado, porque o povo negro,
um dia, mostrará, por sua inteligência, que realmente tem capacidade de estar em
todos os departamentos e autarquias.
Muito obrigado. (Palmas.)
O SR. LUIZ ALBERTO - Sr. Presidente,
Deputado Arlindo Chinaglia; Ministra Matilde Ribeiro; bravo Senador Paulo Paim;
Sras. e Srs. Parlamentares; militantes do Movimento Negro; senhoras e senhores.
Não poderia deixar de participar deste debate, até porque, durante discussão
nesta Casa do Estatuto da Igualdade Racial, fui Sub-Relator de um dos temas que
considero mais importante: estabelecer direitos e procedimentos para
reconhecimento das comunidades remanescentes de quilombo.
Quero agregar a esta importante sessão milhões de pessoas de todos os Estados,
integrantes de entidades do movimento negro que, no dia 20 de novembro, Dia
Nacional da Consciência Negra, saíram às ruas para cobrar do Congresso Nacional
a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial.
Sr. Presidente, considero fundamental o contraditório.
Lembro que, a rigor, este debate ocorre no País há mais de 200 anos. Aqueles que
nunca tiveram voz, é evidente, não tinham como se manifestar dessa forma. Agiam
de outra maneira: organizavam os quilombos, as rebeliões, e, atualmente,
organizam os presídios. E considero significativo avanço a população participar
deste debate no plenário da Câmara dos Deputados.
Ouvi vozes contrárias à aprovação do Estatuto. Estabeleceram um debate antigo,
muito antigo. Foi assim que se estabeleceu o debate antes da assinatura da
abolição da escravatura no Brasil. A elite brasileira se preocupava em proteger
sua propriedade, o seu patrimônio. O debate continua o mesmo, seja sobre
patrimônio material, seja sobre patrimônio imaterial. A elite continua
desenvolvendo a mesma estratégia. Senão, as pessoas de boa fé, ou que não
compreendem o alcance do que estabelece o Estatuto da Igualdade Racial - e acho
que existem tais pessoas - deveriam, como disseram alguns oradores que me
antecederam, visitar um presídio e fazer a comparação entre um presídio e uma
universidade pública, a fim de verificar qual a presença do negro e do branco
nessas duas instituições. Por que o sistema não estabeleceu a raça de quem deve
ocupar as celas dos presídios e de quem deve ocupar as salas de aula das
universidades?
O Dr. Hedio disse aqui como o Estado estabelece, impõe a identidade às pessoas.
No Estatuto não há imposição, abre-se a possibilidade de as pessoas exercerem um
direito registrado na Convenção nº 169, da OIT, de se autoclassificar do ponto
de vista da identidade.
Sr. Presidente, estamos vivendo um momento crucial no País, e o Congresso
Nacional tem a obrigação de contribuir, de alguma forma, com a realidade em
curso. Mais de 40 universidades já estabeleceram políticas de reserva de vagas.
Governos Estaduais criaram as Secretarias de Promoção da Igualdade, como é o
caso da Bahia, onde quase 300 municípios hoje já comemoram o feriado do Dia
Nacional da Consciência Negra. O que se espera mais para garantir, do ponto de
vista de marco legal, as conquistas que a sociedade brasileira, e não apenas a
população negra, consolida cada vez mais?
As vozes minoritárias assim continuarão do ponto de vista do número, mas são
majoritárias pelo controle dos instrumentos de poder do País.
Está aqui, Sr. Presidente! Saiu hoje no jornal A Tarde, da Bahia. E me
parece que aqui em Brasília foi lançado também um livro intitulado A
Revolução Quilombola.
Quem está articulando esse livro e usa argumentos semelhantes aos usados aqui
contrariamente ao Estatuto é a TFP - Tradição, Família e Propriedade, ou seja,
um setor da sociedade da extrema direita, que, a rigor, não gostaria que tivesse
ocorrido, em algum momento da História do Brasil, a abolição da escravatura.
Aliás, de acordo com seus interesses, não gostaria nem que fossem buscar
africanos para trazer para o Brasil.
Essas senhores e esses senhores da extrema direita é que estão lançando esse
livro, atacando uma das maiores conquistas de cidadania do povo brasileiro,
particularmente do povo negro.
No dia 20, o Presidente Lula cobrou a aprovação do Estatuto da Igualdade Racial,
importante marco legal para consolidação das políticas públicas deste Governo -
e é bom que se diga, acumulado também de governos anteriores.
Muito obrigado (Palmas.)
A SRA. DEPUTADA JANETE ROCHA
PIETÁ - Sr. Presidente, Deputado Arlindo Chinaglia, sei o quanto V.Exa. é
ocupado e, desde já, agradeço por permanecer na presidência dos trabalhos desta
Comissão Geral. Para mim, essa atitude significa compromisso com o que queremos,
isto é, que a matéria seja colocada na pauta de discussão. (Palmas.)
Agradeço à Sra. Ministra Matilde Ribeiro a presença.
Quero falar sobre a importância do artigo publicado no jornal Correio
Braziliense a respeito da saúde dos afro-descendentes e suas doenças
específicas, principalmente a anemia falciforme. Apresentei um projeto de lei
sobre esse assunto e vou solicitar prioridade na sua discussão.
Cumprimento nosso companheiro e irmão, Senador Paulo Paim, que muito tem
contribuído colocando na pauta de discussão o que a sociedade sempre quer
silenciar.
Nós incomodamos, Senador, quando levantamos questões candentes da comunidade
afro-descendente no Brasil. Todos têm o direito de dizer o que pensam, isso faz
parte da democracia. Mas gostaria de fazer algumas observações.
Sr. Presidente, dados mostram que 75% das meninas negras são trabalhadoras
domésticas infantis agregadas e que a maior parte das empregadas domésticas são
afro-descendentes. E elas estão se organizando para conseguir legalizar seus
direitos.
No Brasil, o maior número de morte pela violência externa possui cor e idade:
são os afro-descendentes entre 15 e 23 anos. No próximo ano, vamos completar 120
anos de abolição não concluída, porque o negro saiu direto da senzala para as
ruas. Por que os europeus que para cá vieram trabalhar a terra receberam terra e
condições para se implantar no Brasil?
O Estatuto é uma necessidade. Perfeita nenhuma lei é, mas pelo menos vai dar
visibilidade sobre quem somos. Somos uma maioria sem visibilidade. (Palmas.)
Alguém disse: há poucas Deputadas. Como mulheres, somos 8,7%, e
afro-descendentes, menos de 5%. Esta é a realidade. Se somos quase ou mais do
que 50% do povo brasileiro, neste Parlamento e nas universidades, essa é a nossa
realidade.
Não temos que ter o discurso de clarear nossa pele. Eu não quero o nome de
parda. No dia em que eu puder, eu o retiro do meu registro. (Palmas.)
Minha referência e meu espelho são meus pais e meus avós. Só muito tempo depois
descobri no meu registro qual era a minha cor. Mas a minha cor é a da minha avó,
Alzira, negra, de luta, da minha mãe e do meu pai. Se há algum europeu na
família de meu pai, isso não tira a minha origem, as minhas tradições e a
contribuição de meu povo, que veio da África nas piores condições.
Estou com o colar zulu para dizer a todos que independentemente de cabocla -
também sou cabocla rural por parte de pai -, o mais importante é resgatar a
dignidade da maioria do povo brasileiro.
Sr. Presidente, temos que sair da inércia. Peço a V.Exa. que coloque em votação
a lei que estabelece Zumbi dos Palmares como um líder nacional; como também o
Almirante negro João Cândido. (Palmas.)
Muito obrigada. Democracia é isso: é ouvir, mas é, principalmente, cumprir as
políticas de Estado já estabelecidas.
Temos que agradecer ao Presidente Lula por realizar aquilo que os movimentos
negros sempre buscaram: o direito dos quilombolas.
Viva Zumbi!
Obrigada. (Palmas.)
O SR. PRESIDENTE (Deputado
Arlindo Chinaglia) - A Ministra Matilde Ribeiro irá se ausentar, porque tinha
uma viagem de trabalho já agendada.
Para substituí-la, convido para tomar assento à Mesa o Sr. Martvs das Chagas,
Secretário-Adjunto da SEPPIR. Estão presentes também, representando a SEPPIR, os
Srs. Alexandro Reis, Subsecretário de Políticas de Ações Afirmativas, Benedito
Cintra, Ivonete Carvalho, acompanhados de assessores.
Agradeço à Sra. Ministra a presença.
Anuncio a presença do Sr. Marco Davi de Oliveira, Coordenador da Executiva
Nacional da Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil - ANNEB. Seja
bem-vindo!
O SR. DEPUTADO CARLOS SANTANA
- Sr. Presidente, senhoras e senhores, rretornar a esta discussão depois de 2003
faz deste um momento histórico.
Com muita tristeza, ressalto que ninguém foi à África perguntar aos meus
antepassados se queriam vir para cá. Mas temos que trazer para cá pessoas com
posições diferentes. Querem mais democracia que isso? (Palmas.) E vêm
muitas pessoas que não sentem o racismo como eu. Moro em Bangu e, para chegar à
minha casa, passo por, no mínimo, 30 favelas. Nasci em favela e moro colado a
uma.
Este é um País racista, o mais racista do mundo! (Palmas.) O racismo é
uma ideologia que está dentro das pessoas.
Quem aqui nunca teve um sobrinho ou um filho que chegou em casa chorando por ter
sido maltratado no colégio? Quem aqui não sentiu na pele, estando no trabalho,
na rua ou no restaurante, o racismo? Eu senti um dia antes de tomar posse nesta
Casa - estou no quinto mandato de Deputado Federal. Quando fui comprar meu
primeiro terno, eles não acreditaram que eu poderia ser um Deputado Federal. E,
como disse a Deputada Janete Rocha Pietá, somos menos de 5% na Câmara dos
Deputados.
Sr. Presidente, esta Casa discute tudo, mas não pode discutir a questão racial.
Isso é proibido. (Palmas.) Por que é proibido? Porque eles não querem que
nós tenhamos consciência racial. Estou dizendo isso porque venho do movimento
sindical, sou metalúrgico caldeireiro, sou de uma categoria onde a maioria era
de negros. E nós aprendemos, erradamente, que, resolvendo o problema de classe,
vamos resolver o problema do negro.
Onde isso aconteceu? Mostrem-me um país socialista, um país comunista onde foi
resolvido o problema dos negros. Em lugar nenhum, Sr. Presidente. Por isso, eles
não querem que discutamos. Respeito até a posição dos companheiros que trabalham
com a questão de classes, mas não posso escutar o outro dizendo que vai ter
divisão.
Já existe divisão. Que Brasil é este em que vocês vivem? (Palmas.)
Digam-me: que Brasil é este? Mostrem-me este País. Já existe divisão, e muita,
Sr. Presidente. Quem gosta de cálculos, é só ver as pesquisas do IPEA e do IBGE.
Estamos tão atrasados que deveríamos estar pedindo bolsa para os nossos garotos
e garotas cotistas das universidades, porque muitos não têm nem dinheiro para
pegar ônibus.
As religiões africanas são perseguidas no Brasil. Uma criança, quando sai do seu
terreiro, tem que tirar sua vestimenta para ir à escola. Muitas vezes, tem que
renegar a religião. Eu, que vim de pastoral operária, de pastoral da juventude,
sei a importância das religiões africanas.
Quando a Lei nº 10.639 entrar em vigor e pudermos estudar a África, nossos
filhos e netos não vão ter vergonha de dizer que são negros.
Ninguém nunca veio me perguntar, quando meus pais me registraram como pardo, se
eu gostaria de ser considerado pardo. Eu quero ter o direito de dizer: "Sou
negro e a minha descendência está na África!" (Palmas.) Eu quero ter esse
direito. Se fulano não quer, é problema dele. Eu quero ir a todos os lugares
como negro. Quero chegar a um restaurante e ser respeitado, não porque sou
Deputado Federal, mas porque sou um ser humano. Quando eles descobrem que sou
Deputado Federal, mudam o tratamento.
Eles já roubaram tudo da gente, Sr. Presidente. Já nos roubaram o samba. A maior
paixão nacional é o futebol e ainda colocam alguns jogadores de expressão
dizendo: "Eu não sou negro". Outros: &quo