É necessária uma nova bandeira
Professora de Harvard diz que a escravidão não é mais motivo suficiente para as cotas raciais
THOMAS TRAUMANN
NO CENSO AMERICANO DE 2000, PELA PRIMEIRA vez 7,2 milhões se declararam mestiços. Pesquisando por que antes eles não tinham essa opção, a professora Kim Williams descobriu fragilidades nos movimentos negros. E lições para a discussão brasileira sobre cotas raciais.
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► O QUE ESTUDOU Ciências Sociais pela Universidade da Califórnia em Berkeley, com ph.D. por Cornell ► O QUE FAZ É professora da escola John F. Kennedy de Políticas Públicas da Universidade Harvard, nos EUA ►O QUE PUBLICOU Mark one or more (inédito no Brasil), sobre os direitos dos mestiços. Vai lançar agora The New Politics of Displacement sobre movimentos de direitos negros |
ÉPOCA - O que a luta pelos direitos das minorias raciais nos Estados Unldos pode ensinar ao Brasil, que hoje discute a adoção de cotas nas universidades?
Kim Williams - Para começar, eu não considero os EUA como modelo de igualdade racial. Mas há algumas lições. Vocês no Brasil estão planejando introduzir uma política de cotas em função da dívida histórica com a escravidão, certo?
Pois esse é um princípio errado.
ÉPOCA - Por quê?
Kim Williams - É fato que os direitos civis implantados nos EUA a partis dos anos 60 abriram oportunidades de educação e de emprego para negros e para o florescimento de uma classe média negra. Mas a ascensão parou aí. A classe média negra americana não vive para acumular bens, como a classe média branca, mas para pagar as contas no fim do mês. O filho de uma família de classe média negra americana tem muito mais possibilidade de ficar pobre que um branco na mesma situação.
E alguém se importa?
ÉPOCA - Imagino que a senhora tenha a resposta.
Kim Williams - Infelizmente, pouca gente se importa. Hoje, o senso comum americano se pergunta: "O que mais os negros querem? Eles não receberam os direitos que queriam? A Condoleezza Rice não é a secretária de Estado?". A sociedade americana acha que a dívida histórica da escravidão foi paga, e não há mais o que fazer. Por isso, acho que ao menos nos EUA, a questão da desigualdade entre as raças não se enfrenta com uma motivação histórica. Os movimentos.negros americanos ainda não perceberam que estão usando os mesmos cartazes dos anos 60 no mundo globalizado do século XXI.
ÉPOCA - E como a bandeira contra a desigualdade se atualiza?
Kim Wllliams - Pela diversidade do povo. Países como EUA e Brasil têm uma riqueza multicultural que precisa ser incentivada e compreendida pela sociedade e pelo Estado. Nos EUA, as leis dos anos 60 que criaram as cotas favoreceram não só negros, mas também hispânicos, asiáticos, enfim, minorias raciais que não passaram pela tragédia da escravidão. No fundo, portanto, as cotas não têm o papel de resgate histórico que dizem ter.
ÉPOCA- Quarenta anos de direitos civis não foram suficientes para os EUA se aceitarem como um país multicultural?
Kim Williams - Nós EUA, só existem duas instituições favoráveis às cotas. A primeira é o Exército, que entendeu que não pode funcionar tendo soldados negros e hispânicos enquanto todos os oficiais forem brancos. Isso é péssimo para o moral da tropa. A segunda são as grandes corporações, que concluíram que vendem mais se tiverem um quadro pessoal com diversidade étnica. Ser politicamente correto pode ser lucrativo. Você já notou que, nos comerciais americanos, sempre há um grupo de amigos - um branco, outro negro, outro hispânico?
É só no mundo da publicidade que essa convivência racial existe (risos).
ÉPOCA - O que os EUA ou o Brasil ganham se reconhecendo como paises multiculturais?
Kim Williams - Você passa a falar sobre o futuro, e não sobre o passado. Você passa a discutir quem faz parte de seu país e como esse povo - seja branco, seja negro, seja amarelo ou mestiço - forma a identidade do país.
ÉPOCA - A senhora escreveu um livro sobre os direitos dos mestiços. Pela primeira vez, no censo de 2000, os americanos tiveram o direito de se identificar com mais uma raça. O que mais a surpreendeu em sua pesquisa?
Kim Williams - Os mestiços estavam no limbo legal até o censo do ano 2000. Em vários Estados americanos, o casamento inter-racial era proibido até os anos 60. Neles, esta é a primeira geração de filhos de uniões legais entre pessoas de raças diferentes. Eu imaginava encontrar filhos da agitação política dos anos 60. E achei mães brancas, de classe média alta, que buscavam uma identidade para seus filhos, que não eram nem negros nem brancos.
![]() ÍCONE Condoleezza Rice: negros no poder? |
"Hoje o senso comum americano se pergunta: 'O que mais os negros querem? A Condoleezza Rice não é a secretária de Estado?'" |
ÉPOCA - A verdade é que nem brancos nem negros parecem gostar dos movimentos pró-mestiços, certo?
Kim Williams - É verdade. Os brancos consideram os filhos de casais inter-raciais como negros, e as organizações negras achavam que o movimento multirracial atingiria seus direitos.
ÉPOCA - Por que tanta celeuma em torno de uma coisa tão simples, como uma pergunta no censo?
Kim Williams - Nos EUA, os dados do censo decidem muita coisa, da verba federal destinada a cada Estado à divisão distrital dos eleitores.
ÉPOCA - Para ser aprovada, a lei que mudou o censo teve apoio dos republicanos, tidos como contrários aos direitos das minorias. Não foi uma aliança estranha?
Kim Williams - Foi. Os republicanos apoiaram a medida pelos motivos errados. Eles querem que os EUA sejam cegos racialmente, que não reconheçam a relação entre raça e desigualdade. E querem usar o movimento multicultural para acabar com a política de cotas. É um jogo pesado.
ÉPOCA - Qual o futuro do sistema de cotas raciais nos EUA?
Kim Williams - Se os movimentos das minorias não se reciclarem, as cotas poderão acabar em poucos anos. Hoje, a Suprema Corte americana está dividida ao meio sobre o tema, mas as indicações de juízes do governo Bush mostram uma tendência anticota. E por isso que o movimento pela diversidade racial pode ser a saída. Os movimentos brasileiros podem aprender com esse dilema americano.
ÉPOCA - A senhora se interessou pelo movimento em defesa dos direitos dos mestiços por motivos pessoais?
Kim Williams - Sempre me perguntam isso (rindo). A resposta é não. Sou negra e meu marido é negro. Sou apenas uma cientista social. Agora, pretendo estudar os casamentos inter-raciais entre brancos e asiáticos.
De Época, São Paulo (SP), 11/12/2006, n.º 447, p. 60, 62.