Entrevista da semana: Ali Kamel, autor de Não somos racistas (Editora Nova Fronteira)

Oi Gente!

O nosso entrevistado desta semana é Ali Kamel, repórter e diretor de jornalismo da Rede Globo, que lançou recentemente o livro Não somos racistas (Editora Nova Fronteira). O livro de Ali é um daqueles títulos que estão começando a aparecer nas estantes das livrarias brasileiras que procuram questionar o discurso politicamente correto automático, trazer à luz uma argumentação que não se satisfaz em repetir mantras ideológicos e que contribui para rever clichês que se tornaram obsoletos.

Às vezes tenho a sensação que a visão de cidadania brasileira atual é uma cidadania mais de direitos do que de deveres. O senso comum em nosso país cultiva a concepção de que nós, brasileiros, temos sido sempre, esmagadoramente, vítimas de uma elite minoritária cruel e egoísta. Essa visão de formação de sociedade parece ter desembocado na atualidade em um processo histórico indenizatório, uma espécie de passadismo compensatório.

Esse viés de entendimento faz com que a assistência social passe a ter uma dimensão desproporcionalmente grande, mais compensatória do que efetivamente de alívio das dificuldades que nossos cidadãos carentes estão enfrentando no presente. Argumentar contra esse entendimento é mexer em um vespeiro protegido pela argumentação politicamente correta. E na visão do passadismo compensatório os negros devem vir como prioridade. Daí a justificativa para o sistema de cotas, etc. O Ali assume uma posição corajosa de questionar até que ponto isso é deve ser assim mesmo. Vamos lá, ao papo com ele.

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Ricardo Neves: Ali, quando estamos com amigos do exterior que nos visitam e que são pessoas progressistas do ponto de vista social e não meros capitalistas alienados, ganhamos sempre pontos quando afirmamos que o Brasil é o país mais desigual do mundo, que nossas elites estão entre as mais cruéis do planeta, que somos uma nação profundamente racista, e que somos também uma sociedade violenta. O seu livro mexe com um vespeiro, pois cutuca um dos pilares dessa argumentação e já diz isso no título. Como tem sido a sua avaliação das repercussões de seu livro, agora que o mesmo já tem mais de 15 mil exemplares vendidos, sendo, portanto, um best-seller? Quais têm sido as críticas que são mais consistentes e não mera tijolada ideológica?

Ali Kamel: De fato, a elite intelectual que vem de fora tem essa expectativa: que sejamos autodepreciativos no que diz respeito às nossas relações “raciais”. Mas o estrangeiro em geral, não. Essa semana, cheguei de Londres. Ao meu lado, no avião, estava um senhor, empresário do ramo de mineração. Tentava aprender Português num livrinho, repetindo as palavras. Era do tipo falante, e logo travou contato. Ele tem uma empresa que explora ouro no Pará e níquel na Bahia. É australiano. Conversa vai, conversa vem, ele falou mal da nossa burocracia, da nossa corrupção, da nossa elevada carga tributária, mas, espontaneamente, disse que a nossa grande virtude era que éramos uma só cultura, uma só língua e, nas palavras dele, “uma mistura só”. Ele disse que aqui, mais do que em qualquer lugar onde já teve negócios, é fácil trabalhar, porque todo mundo se entende, ninguém tem raiva do preto, do branco do índio. Citou a África do Sul, onde uma etnia (negra, entenda-se) não se dá totalmente com a outra (negra também). Citou a Bolívia, em que a população indígena vive massacrada pela elite branca. No Brasil, disse ele, todos se misturam, e, para ele, isso torna o trabalho mais fácil. No trato com estrangeiros cidadãos comuns, a percepção ainda é a de que o Brasil é um país em que as “raças” vivem de uma maneira mais harmoniosa. Esse empresário que mencionei vive em Londres, é australiano, e tem negócios no Brasil há seis anos.

Entrando no cerne de sua questão, eu diria que até o momento, e digo isso lamentando, não vi nenhuma crítica que não fosse uma pedrada ideológica. Os menos engajados lamentam que eu diga que não existe racismo no Brasil. Eu me entristeço com a crítica, porque demonstra que o livro não foi lido: o que mais digo no livro é que há racismo aqui como em toda parte em que haja gente reunida. Mas não somos uma nação estruturalmente racista. Prova disso é o nosso alto grau de miscigenação. Eu escrevi o livro porque sou um anti-racista visceral.

Ricardo Neves: Ali, junto à comunidade internacional, por exemplo, organizações multilaterais de desenvolvimento, você já teve oportunidade debater seu livro? Essas organizações têm uma visão estereotipada e negativa do Brasil; de que somos, sim, uma nação racista. Esse conceito acaba sendo reforçado pela conivência e pela incapacidade de discutir de igual para igual que a maioria dos brasileiros tem em relação a estrangeiros. Característica essa reforçada pela nossa baixa-estima quando nos confrontamos com outras nacionalidades, sobretudo os norte-americanos e europeus. Aquilo que o Nelson Rodrigues chamava de “síndrome de cachorro vira-latas”. Qualquer um que ouse ponderar sobre esses clichês e estereótipos negativos é visto como um membro das “elites cruéis”, a “burguesia branca”, como disse o Cláudio Lembo, governador de SP nos dias do motim do PCC. Já tive essa sensação várias vezes em fóruns internacionais. Funcionários do Banco Mundial, do BID, do PNUD, correspondentes de imprensa internacionais não conseguem, na minha opinião entender a natureza especial de nossa problemática. Para eles o racismo, bem como a problemática do desenvolvimento, é exatamente a mesma coisa no mundo inteiro e fim. Como você tem progredido sua conversa com esses atores em especial seus colegas de imprensa internacional?

Ali Kamel: Tem sido uma lição, para mim, e um reforço na crença de que somos diferentes. Eu parei de ir a debates, porque as platéias já chegam com opiniões formadas. Há também sempre uma claque que vai para vaiar e debochar. Cansei disso. Prefiro debater assim: sendo entrevistado, publicando artigos, livros. É uma pena, porque gosto do confronto de idéias. Eu concordo com você: os organismos internacionais têm todos a mesma visão e querem trazer para cá os mesmos modelos. São míopes: olham-nos com os olhos de seus países centrais.

Meu livro foi objeto de pequenas menções em dois grandes jornais de língua inglesa e foi debatido num podcast de um deles. Não os menciono, porque na troca de e-mails com os repórteres me comprometi a não usar a troca de correspondência para nenhum outro fim. O que percebi, nos dois casos, é que simplesmente eles não nos entendem. É como se fôssemos malucos. No podcast, uma conversa gravada entre dois correspondentes estrangeiros sobre a questão racial no Brasil, um deles, mais afeito a nossas coisas, tentou explicar que no Brasil, quem não é branco nem sempre é negro. Disse isso assim, preparando o outro para levar um susto: “Veja, no Brasil, eles acham que nem todo mundo que é branco é negro”. Pois claro: essa é a nossa especificidade. Somos uma mistura total e conseguimos nos ver nas mais diversas cores. Eles, não. Eles vêem branco e preto. E diante de nós, esse povo estranho, espantam-se: os caras vêem colorido! Lendo-os e trocando e-mail com eles eu entendi perfeitamente que para eles é bem difícil entender o que se passa aqui. Eles nos vêem com óculos estrangeiros. E dá zebra: preto e branco.

E uma parte de nossa elite intelectual, com o complexo de vira-lata que você menciona, acolhe a visão deles sobre nós, em vez de rechaçá-la. E parte do movimento negro a acolhe porque isso é interessante para ele, o movimento. Troquei longos e-mails com eles, expliquei, expliquei, mas o máximo que consegui foi cansá-los. Sobre organismos internacionais, alguns chegam a praticar sensacionalismo acadêmico, como disse no livro. Distorcem os números para que eles digam o que não pode ser dito.

Eu saí daqui para ir para Londres logo depois da Semana da Consciência Negra. Os jornais dedicaram páginas e mais páginas, quase num orgulho frenético para provar que somos racistas! Acho louco isso, principalmente porque nenhum dos números divulgados nos permite essa conclusão. Cheguei a Londres e me deparei com uma conferência sobre relações raciais, promovida pela Comissão para a Igualdade Racial, criada há 30 anos. Estava o maior debate, porque o prefeito de Londres, Ken Livingstone, de esquerda, recusou-se a tomar parte da conferência porque o presidente da Comissão, Trevor Phillips, um negro, fez pesadas críticas à política racial britânica das últimas décadas. O Phillips declarou, sensatamente, que as políticas que visavam a transformar o Reino Unido numa nação multiétnica e multicultural apenas acirraram o que ele chamou de guetização da sociedade britânica: cada um no seu canto, com os mesmos direitos, mas vivendo separados, cada um no máximo sendo indiferente aos outros. Os brancos, disse Trevor, toda vez que uma área tem um maior número de residentes de alguma minoria, fogem pacificamente para outra. Phillip declarou: “Queremos mistura!” Tudo o que o Reino Unido conseguiu foi isso: mais racismo, com etnias separadas. Isso é inevitável. Quando você enaltece a diferença, você reforça o racismo. Temos sempre de enaltecer a igualdade, a semelhança. O prefeito de Londres, um ativista anti-racista de longa data, ficou furioso. Mas ele está errado. Phillip está certo.

O trágico é que, no Brasil, onde já somos misturados, alguns querem nos separar numa nação de negros e brancos! Não acho que caminharemos para a guetização, porque isso é contra o nosso espírito. Mas vamos correr sérios riscos. Essas pessoas querem que sejamos algo que os ingleses já viram que não dá certo. Eu não quero que o Brasil se reconheça como uma nação multiétnica. Eu quero que o Brasil continue se vendo como uma mistura! Essa é a nossa virtude.

Ricardo Neves: Um dos aspectos importantes de seu livro é o questionamento que você faz dos números que fundamentam a defesa de políticas compensatórias, isto é, as estatísticas sócio-econômicas de nossa população que IBGE produz e que são analisados por um viés que produz um diagnóstico equivocado: o de que “os brancos oprimem os negros na sociedade brasileira” desde todo o sempre. Você aponta também aquilo que pontuei em meu livro Pegando no Tranco: como instituições do tipo PNUD e IPEA acabam fazendo com dados de pesquisa socioeconômica o que as fábricas de salsicha fazem com matéria animal: misturam coisas indevidas e produzem algo absolutamente inconfiável que você não consumiria se estiver no exercício de sua racionalidade. Todas essas instituições são de reputação e estatura, por que continuam produzindo análises tão tortas? Você vê algo de novo saindo, isto é, instituições desenvolvendo novos pontos de vista, novos tanques-de-pensar brasileiros, por exemplo?

Ali Kamel: Infelizmente, não vejo. Mas o debate não está perdido e conseguiu-se algum avanço. Ano passado participei de um colóquio com técnicos do IBGE. Foi muito interessante. Eu acho o IBGE o máximo de honestidade. Na ocasião, porém, por comodismo, eles já iam longe na prática de divulgar estatísticas com corte de cor usando a categoria “negro” como sinônimo de pretos e pardos. Eu disse que isso era trágico. Porque o IBGE, que se propõe a produzir números e estatísticas frias para que os pesquisadores façam uso delas, estava chancelando uma prática de certa corrente sociológica em detrimento de outra, o que era uma tomada de posição. Como o IBGE desfruta de grande reputação, especialmente entre jornalistas, o que ele fala é lei, vira realidade. E assim, o que antes era um conceito sociológico construído pela sociologia paulista (a noção de negro) passava a ser visto como realidade, com a chancela do IBGE. Onde ficava a neutralidade num debate tão acalorado? O que é um pardo? Se é desde um quase-branco a um quase-negro, como chamar tudo de negro? Pois bem, esse ano, o IBGE divulgou seus estudos durante a semana da Consciência Negra usando apenas os dados desagregados: os pretos e os pardos. Foi um avanço e tanto. Alguns jornais notaram a sutileza, outros não. Soube que em muitas redações houve uma reação a usar pretos e pardos. Incomodaram-se com o “pretos”. No geral, ainda houve grande confusão: no corpo da matéria, respeitavam o IBGE e falavam em pretos e pardos, mas, em alguns títulos, usaram “negros”. De qualquer forma, já é um avanço.

Tomara que eu seja claro o suficiente no raciocínio a seguir. Se é verdade que todo pardo pode ser chamado de negro, como dizer que em nossos restaurantes, em nossas lojas de shopping, há poucos negros como vendedores e compradores? Como dizer isso? Se pardo é negro, os restaurantes e shoppings estão coalhados de negros. Faça essa experiência: há pardo para tudo o que é lado, porque somos uma nação mestiça! Ora, se os pardos servem para engrossar as estatísticas sobre negros, só assim nos transformando na maior nação negra depois da Nigéria, por que, ao verem pardos em restaurantes dizem que eles não são negros?

Um amigo meu, humorista muito sério, leu o meu livro e o debateu comigo. Ele é negro. Lá pelas tantas, ele disse uma verdade lapidar. Como há uma grande interseção no Brasil entre negros e pobres, ele disse que ocorre o seguinte fenômeno entre nós: na favela, pardo “imprime” negro; no shopping, pardo “imprime” branco. Isso revela o racismo de quem diz que no Brasil existe o racismo, entende? Eles são anti-racistas, mas não percebem que quando vêem um pardo numa situação de “rico” o identificam com um branco! Na hora de fazer as estatísticas, colocam-no como negro. Uma loucura isso.

Ricardo Neves: Seu livro não fala disso, mas, talvez, uma outra publicação sua no futuro possa lançar luz sobre um aspecto crucial: o papel do jornalista na permanência dessa visão do passadismo compensatório. Os jornalistas, tirando uma minoria da qual você mesmo é um representante, em geral quando recebem um press-release do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ou da Banco Mundial, por exemplo, publicam o que vem e dificilmente vão lá checar a metodologia por detrás da fábrica de salsicha. Parece que se intimidam pela estatura das instituições e se tornam acríticos.O problema me parece mais grave porque os jornalistas, diferentemente dos executivos que se reciclam com mais freqüência em cursos de educação continuada, têm maiores dificuldades em aprender coisas novas fora do sufoco operacional. O que há de novo nesse front que vale a pena mencionar?

Ali Kamel: É verdade. Isso decorre da reputação dessas instituições, como você mencionou antes. Se o PNUD falou, está falado. Mas é algo complicado. Imagine que uma geneticista dê uma entrevista sobre câncer. Se ela pertencer ao INCA ou a Harvard, o que ela falar, vai virar lei, estará no jornal. Os cientistas sociais são vistos da mesma maneira. Se é cientista social, se fez uma pesquisa, se foi divulgada pelo PNUD, como discutir? Esse é um problema comum a todas as áreas. Como sou formado em Ciências Sociais, sinto-me mais apetrechado para ver problemas nessas pesquisas. O que eu digo sempre é que nosso papel é procurar o contraditório. Em tudo há uma opinião divergente. Em medicina há. E temos sempre de procurá-la. A pressa do fechamento é que impede um trabalho mais bem feito, mas contra isso é cada vez mais freqüente a política de embargo: solta-se a pesquisa com uma semana antes, mas com embargo. Assim, o jornalista tem mais tempo de entendê-la e de procurar o contraditório. Em todas as áreas. Também contribuiu para essa postura acrítica a exigência do diploma de jornalista. O sujeito que só faz Comunicação Social sai como um generalista em nada. Ele estuda um mínimo de muito. Se as redações estivessem povoadas por médicos, engenheiros, advogados, que se desgostaram da profissão original porque têm talento para jornalismo, estaríamos com mais gente preparada para analisar um maior número de fatos.

Ricardo Neves: Você citaria pessoas negras ou não-brancas que comungam dessa visão de que não é o racismo, mas o classicismo o xis da questão e que, nesse contexto, o melhor remédio é a melhoria profunda do sistema educacional público, como um todo, e não um sistema de cotas? E no PT, você encontra pessoas que são capazes de externalizar uma perspectiva semelhante?

Ali Kamel: Eu tenho por norma não citar nomes. Você deve ter reparado nessa entrevista. Eu aceito todas as companhias, mas elas têm de ser espontâneas. Citá-las pode constrangê-las, ainda mais num tema tão quente. Mas, sim, há muitas e muitas pessoas que comungam dessas idéias, dentro e fora do PT. Basta ler o manifesto contra a racialização da sociedade brasileira.

Ricardo Neves: No meu livro Pegando no Tranco – o Brasil do jeito que você nunca pensou, uma das questões centrais é que procuro mostrar que o tamanho da pobreza no Brasil é muito menor do que o estimado pelos que usam o indicador renda. Quem usa esse indicador fala em 48 milhões, até 60 milhões vivendo abaixo da pobreza. Aprendi trabalhando com pesquisas de mercado para empresas que “renda” não é um indicador confiável. Renda é autodeclarada. Por isso, é sempre, na verdade, subdeclarada. O fato é que as pessoas não gostam de revelar quanto ganham. Mundialmente. Pior ainda. Em países onde a informalidade é muito grande, o indicador renda se torna ainda mais inconfiável, pois as pessoas não conseguem ter regularidade de renda para poder sequer responder, de forma racional, a pergunta das pesquisas do IBGE (textualmente é “qual a sua renda média mensal nos últimos doze meses?”).

Nesse contexto, as pesquisas de mercado para empresas procuram medir o consumo das pessoas. Perguntar se tem ou não TV, rádio, DVD, carro, plano de saúde, onde moram, etc. são perguntas que a maioria das pessoas responde sem se esquivar. Por aí é possível fazer um cálculo do nível socioeconômico do indivíduo. A análise baseada no consumo avalia que temos entorno de 16,5/17 milhões de indigentes. A própria Sonia Rocha, da FGV, minha especialista favorita em pobreza, estima nossos indigentes em 6,5 milhões nas grandes regiões metropolitanas e 10 milhões nos grotões.

Eu vivo dizendo para as pessoas esquecerem de vez a renda declarada como um indicador confiável. Vivo argumentando que os processamentos que o IPEA e FGV adoram fazer em cima dos dados de renda da PNAD, por exemplo, são arrematadas besteiras. Assim, minha pergunta é: mudando o que deve ser mudado, no caso da questão de assistência e desenvolvimento social e etnia, você teria alguma coisa semelhante a dizer? Quais são as perguntas que valem a pena fazer e a metodologia mais correta para diagnosticar o problema. Você acha que perguntar “qual sua raça” fornece ou não algum avanço em termos de conhecer bem a natureza dos nossos problemas sociais?


Ali Kamel: Taí uma boa questão. Em relação aos pobres, eu concordo integralmente com você. A POF (pesquisa de orçamento familiar) provou isso. Medindo e pesando as pessoas, descobriu-se que no Brasil o percentual de pessoas magras é de 4%, um número compatível, segundo a OMS, com os geneticamente magros. E se há fome há indivíduos magros, não tem jeito. No Brasil, o número está dentro do normal. Na Índia, esse número é de 50%; no México, de 9%. Não há fome, portanto no Brasil. O governo, em vez de comemorar, inventou um conceito de fome gorda, uma piada para os nutricionistas. Não existe isso de fome gorda. Se uma pessoa está gorda, ela não passa fome. Ela pode estar se alimentando mal: cheia de colesterol, gordura etc. Mas com fome ela não está. Trata-se não de dar comida, mas de educá-las para se alimentar melhor. No quesito cor, eu deixaria as coisas como estão: apenas o IBGE fazendo censo e PNAD perguntando sobre cor, mas jamais estendendo isso a tudo o mais, como quer o Estatuto da Igualdade Racial. Eu tenho certeza de que fazendo isso, aplicando em educação, criando empregos e distribuindo renda, em pouco tempo verificaremos que há negros em todas as classes sociais.

Agora mesmo, temos esse exemplo. O Governo Fernando Henrique universalizou o acesso ao ensino fundamental. Como resultado esperável, mais gente, negros, pardos, brancos, amarelos, habilitaram-se a disputar uma vaga nas universidades. O repórter Antônio Góes, da Folha, fez uma tabulação na PNAD e descobriu que os negros nas universidades (os pretos e os pardos) pularam de 18% para 30%. Um crescimento extraordinário. E vai aumentar ainda mais. Aí, claro, algum apressado atribuiu às cotas, coisa que o repórter não endossou. Trata-se de uma besteira.

A primeira universidade a adotar as cotas foi a UERJ em 2001. Agora, são 16 federais e 17 estaduais que têm cotas, um nada. E os negros entraram nas universidades às centenas de milhares. Foi um movimento espontâneo, prova de que o certo é investir em educação. E olha que o que o FH fez foi botar os meninos nas salas de aula. A qualidade ficou a mesma coisa ruim. Das 167 mil escolas de ensino fundamental no Brasil, 77% não têm nem biblioteca, 95% não têm laboratório de ciências! Imagine se nossos governos tivessem mexido na qualidade! Nossas universidades hoje estariam coalhadas de pessoas de todas as cores.

Como disse antes, eu sou um anti-racista visceral. O que me faz ser contra as cotas é isso. Eu quero ver as pessoas sem ver a cor delas. Isso não é nada. Somos todos iguais, essa é a felicidade do ser humano. Todos os outros animais têm raças, espécies diferentes. Nós, não. Os genes responsáveis pelo nosso fenótipo (cor da pele, textura do cabelo) são uma fração de 0,005 do nosso genoma. Um nada. Em todo o resto somos iguais. Apostar em raça, apostar na ênfase na diferença não leva nem nunca levou a boas coisas. Primeiro você se diz diferente. Depois, se diz pior ou melhor. Nós somos todos iguais.

Ricardo Neves: Ali, foi um grande prazer conversar com você. Um grande abraço e sucesso.

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