'Pardo não é negro'

Membros de movimentos sociais que representam pessoas de cor parda não aceitam ser definidos como negros e afirmam que sofrem discriminações de outras entidades representativas

 

O médico Gérson Leão Alves, 42, representante do Movimento Pardo­Mestiço Brasileiro, a secretária Helda Castro, 38, da Associação dos Caboclos e Ribeirinhos do Amazonas, e a professora Elizoneide Rodrigues Silva, 40, da Organização Brasileira de Afrodescendentes, afirmam que embora uma recente pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tenha definido que a cor predominante da população amazonense seja parda representando 75% de pessoas dessa cor são indevidamente classificadas como negras e discriminadas quando se definem como pardos.

"Pardos são distintos dos negros. Pardo não é sinônimo de negro", enfatiza Leão Alves, que discorda das declarações do representante do Movimento Afro-descendente do Amazonas, Alberto Jorge, que declarou na matéria "Cotas Polêmicas", publicada pelo Correio, no último domingo (24/09), que "as pessoas não se sentem à vontade para dizer que são negras".

Segundo Leão Alves, a negação da identidade mestiça acarreta vários problemas. "O principal é que isso não permite a criação de políticas públicas voltadas para o caboclo", ressalta o representante, frisando que concorda com o pensamento do escritor Ali Kamel, autor do livro autor do livro "Não Somos Racistas", que acusa o governo de difundir o argumento de que a nação brasileira é composta de pessoas somente negras e brancas: "Seguindo essa ótica, índios, caboclos e pardos ficam de fora, sem nenhuma representatividade".

Outro problema, de acordo com Helda, é a dificuldade que os mestiços têm para ter representatividade étnica em entidades culturais. "A Secretaria de Cultura decidiu oferecer apenas uma única vaga para representantes étnicos comporem o Conselho Estadual de Cultura, que está com inscrições abertas até o dia 29 deste mês. Dessa forma, índios, negros e pardos vão disputar essa vaga, sendo que somente um deles irá obter a representatividade", analisa.

De acordo com Leão Alves, a SEC errou ao oferecer apenas uma vaga porque a Lei Estadual n° 3.044, de 21 de março de 2006, que instituiu o Dia do Mestiço no Amazonas, determina que qualquer conselho que tenha representatividade étnica deve ter uma representação mestiça.

Helda também reclama sobre os critérios adotados pela SEC para disputar a vaga.

"A SEC exige que a entidade tenha dois anos de registro formal, ao contrário do Conselho Nacional de Cultura que não faz essa exigência. Além disso, após a inscrição, haverá uma triagem para definir quais entidades que poderão participar da disputa. E os membros que farão essa triagem pertencem ao movimento negro".

Leão Alves critica, ainda, a não observação de uma sugestão do Ministério da Cultura (MinC) na criação de conselhos. "A orientação do MinC é que um fórum de Cultura deve anteceder à criação de um conselho de Cultura", afirma.

Elizioneide, que é da Organização Brasileira de Afrodescendentes, afirma que a entidade da qual faz parte apóia os argumentos apresentados por Leão Alves e Helda quanto aos problemas enfrentado por eles na luta pelo reconhecimento da identidade mestiça. "O nosso objetivo é lutar contra todo tipo de preconceito e discriminação", salienta.

 

Extraído de Correio Amazonense. Manaus (AM), domingo, 8 de outubro de 2006.

 

Página Inicial   Nosso Fórum / Nuestro Foro / Our Forum

Hemeroteca. As páginas de divulgação de artigos e materiais e textos jornalísticos, já publicadas por outras instituições, que abordam temas e fatos relacionados a assuntos étnicos e raciais e o conteúdo e as opiniões neles expostos são de responsabilidade de seus autores, não necessariamente expressando no todo ou em parte opiniões ou posicionamentos do Nação Mestiça. Textos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores.

DENUNCIE A POLÍTICA DO GOVERNO BRASILEIRO CONTRA MESTIÇOS

DENUNCIE LA POLÍTICA DEL GOBIERNO BRASILEÑO CONTRA MESTIZOS

DENOUNCE THE POLICY OF THE BRAZILIAN GOVERNMENT AGAINST MESTIZOS

Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro

Todos os direitos reservados