Kamel alerta para ódio racial
Cientista social levanta teorias a respeito do que pode acontecer quando os pobres brancos se sentirem também excluídos
CARLOS MARCHI
DA AGENCIA ESTADO
SÃO PAULO - Os números não mentem jamais, a menos que sejam manipulados - esta é a principal arma do jornalista e cientista social Ali Kamel para desmontar um dos grandes mitos do Brasil atual, as políticas compensatórias (ou "ações afirmativas", como se diz) para redimir a pobreza que penaliza a população negra. Kamel lembra que nem só os negros são pobres, mostra que os negros usam os pardos para engordar os números da miséria, mas depois os afastam dos benefícios, e, ao final, alerta para o perigo de o ódio racial instalar-se no Brasil.
"Não Somos Racistas" (Editora Nova Fronteira, 143 págs., R$ 22) é um libelo contra o advento do ódio racial e responde à tese politicamente correta das ações afirmativas com uma tese mais politicamente correta ainda - o Brasil tem de resgatar todos os pobres, não só os pobres que são negros. Se não for assim, o que dizer aos milhões de pardos e brancos que são tão pobres quanto os pobres negros? "Quando pobres brancos, que sempre viveram ao lado de negros pobres, experimentando os mesmos dissabores, virem-se preteridos apenas porque não têm a pele escura, estará dada a cisão racial da pobreza", adverte Kamel.
Ele mostra que o Brasil não é institucionalmente racista, apenas tem pessoas que são racistas. E posiciona o fim da democracia racial na década de 50, pela ação da escola de Florestan Fernandes, da qual participava Fernando Henrique Cardoso. Para Kamel, quando chegou ao governo, FHC lembrou-se tanto do que tinha escrito que resgatou a idéia de criar ações afirmativas para os negros pobres. Adiante, o governo Lula - com seus movimentos populistas superlativos - abriu a porteira para as cotas raciais.
O autor desmonta os argumentos usados para justificar as políticas de cotas. No preâmbulo, registra que, segundo a Ciência, raças não existem. Depois, critica a decisão que dividiu o Brasil em brancos e negros, quando o governo FHC decretou que os documentos oficiais deveriam juntar os "pardos", "mulatos" e "pretos" sob um só rótulo - "negros". A partir daí, oficialmente não houve mais pardos, mulatos e cafuzos de variadas nuances - só negros.
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BUSCA RÁPIDA |
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Pardos são os mais pobres |
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Dos 57 milhões de pobres, 34 milhões são pardos (58,7%), 4 milhões são negros (7%) e 19 milhões são brancos (34,2%). Entre os pardos, os pobres são 44,7%; entre os negros, 36,4%; e entre os brancos , 20,4%. Ou seja, mediante qualquer critério, os pardos são mais pobres. |
Essa decisão viabilizou o principal argumento dos militantes negros - de que os negros são 48% da população e 65,8% dos pobres. Nem uma coisa nem outra, prova Kamel. Debulhando números do IBGE e da PNAD, ele mostra que os negros são 6,4% da população (11 milhões); os pardos são 41,7% (76 milhões); e os brancos, 51% (93 milhões).
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Cotas deixa 19 milhões excluídos A política de cotas raciais fará explodir no Brasil o ódio racial, um tipo de manifestação que desconhecíamos. Ela é injusta e excludente porque deixa de fora dos benefícios 19 milhões de brancos pobres e boa parte dos pardos, afirma o jornalista e cientista social Ali Kamel, autor de "Não somos racistas". Ele adverte que as estatísticas mostram que o Brasil é desigual e que os pardos e negros são maioria entre os pobres. "Mas nenhuma estatística mostra que a razão disso é racismo", diz. Kamel, que é diretor executivo de Jornalismo da Rede Globo de Televisão, diz que se as universidades cobrassem um exame de DNA para a inscrição no vestibular, poucos candidatos ficariam fora da política de cotas: "Se o critério fosse genético, as cotas cobririam toda a Nação", assegura, lembrando que estudos já demonstraram que 87% da população brasileira têm mais de 10% de ancestralidade genômica africana. Sobre a hipótese de os diplomas desses serem menosprezados, Kamel disse que "Isso aconteceu nos EUA. Thomas Sowell, um economista de Stanford que estudou o assunto por anos, me disse que os negros caminharam por si, num esforço maravilhoso, mas por causa das cotas, cujo efeito foi mínimo, hoje, muitos brancos acreditam que o sucesso dos negros se deveu a algum tipo de generosidade. |
Extraído de A Crítica, Manaus (AM), 20/08/2006, p. A19.
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