POLÍTICA SOCIAL DE ALTO RISCO
Yvonne Maggie e Peter Fry
A Câmara dos Deputados votará nas próximas semanas o projeto de lei 73/99
que obriga todas as instituições federais de ensino superior a adotar 50% de
cotas ou reserva de vagas para estudantes de escolas públicas e dentro dessa
cota um percentual de estudantes negros (pretos e pardos na classificação do
IBGE), indígenas e outras minorias. Estas cotas serão aplicadas linearmente em
todos os cursos das universidades federais.
Por que essa medida é polêmica? Uns dizem que vai reduzir a qualidade de ensino
e pesquisa das universidades federais. Pode ser. Mas o que queríamos sugerir é
que esta lei traz conseqüências que vão muito além das portas das universidades.
Ela implica um projeto radicalmente novo de nação. A lei, se aprovada, irá
instituir, no âmbito federal, o negro como figura jurídica, o que já ocorreu em
2001 no Estado do Rio de Janeiro, com a aprovação da lei de reserva de vagas
para as universidades estaduais votado por aclamação pela Assembléia
Legislativa.
O que significa instituir o negro como entidade jurídica? Significa uma mudança
radical no nosso estatuto jurídico republicano, que, até agora, ignora “raça” e
pune o racismo como crime inafiançável e imprescritível como os demais crimes
hediondos. Se passar essa lei e os cidadãos serão divididos em duas “raças” com
direitos distintos de acordo com a sua pertença a uma ou outra dessas duas
categorias. A política de cotas raciais, como vem sendo denominada, institui,
portanto uma sociedade dividida entre “brancos” e “negros”. Em outros lugares do
mundo esse tipo de engenharia social trouxe mais dor do que alívio para os
problemas a que visava solucionar.
Há uns que dizem que quem é contra as cotas apenas defende os seus privilégios.
A política de cotas raciais em nada vai afetar as elites endinheiradas do país.
Estas continuarão mandando os seus rebentos para os cursos pré-vestibulares mais
badalados, e encaminharão a sua prole menos competitiva para universidades no
primeiro mundo. As cotas são destinadas justamente para a classe média baixa que
só agora com a expansão do ensino de segundo grau pode sonhar em ver os seus
filhos entrarem na universidade. E essa classe média ascendente é justamente
aquela em que gentes de todas as cores convivem nas mesmas famílias e
vizinhanças. Queremos cindir esse universo social em duas “raças”?
Dirão os proponentes dessa política que o país já é dividido na prática, na
realidade, no dia a dia. Mas é justamente contra isso que o anti-racista deve
lutar. A luta contra o racismo deve ser prioritária, dever de todo o cidadão. No
entanto, o remédio que está sendo ofertado em uma bandeja de prata, é um remédio
barato (posto que é uma política de custo zero que não irá onerar os cofres
públicos) e arriscado, pois o seu custo social pode ser muito alto. É uma
política de curto prazo cujas conseqüências serão sentidas no longo prazo.
Outros defensores das cotas acusam aqueles que têm dúvidas, de racistas,
evidentemente no intuito de calar a crítica. Mas as nossas críticas em relação à
política de cotas raciais partem de um anti-racismo que se espanta com a forte
correlação entre cor escura e pobreza, e que se revolta perante o preconceito e
discriminação, velados ou não, que contribuem para tal desigualdade. Um
anti-racismo que percebe com toda clareza que a discriminação e o preconceito
derivam das representações sociais que hierarquizam entidades denominadas
“raças”. Por isso, nos sentimos na obrigação de lutar contra essas
representações, uma vez que é a persistência delas que possibilita a
continuidade da discriminação e, portanto, da desigualdade.
O debate sobre as cotas é um debate sobre o Brasil. O que está em pauta são dois
projetos de combate ao racismo: um pela via do fortalecimento das identidades
“raciais” e, em última análise, do genocídio dos “pardos”, “caboclos”,
“morenos”etc.; outro pela via do anti-racismo que procura concentrar esforços na
diminuição das diferenças de classe e uma luta contínua contra as representações
negativas atribuídas às pessoas mais escuras. Esses projetos também são projetos
distintos de nação. Um vislumbra uma nação pautada das diferenças
“étnicas/raciais”—isto é uma nação de comunidades. Outro projeto aposta na
construção de uma cidadania com direitos em comum independentemente de “raça”,
“etnia”, gênero, orientação sexual, etc., salvaguardando o direito de cada
individuo a seguir o estilo de vida que mais lhe convém—isto é uma nação de
indivíduos. Enfim, argumentamos que não se pode acabar com o racismo com uma
política que entroniza a “raça”. Quando o Estado legisla sobre esta matéria ele
funda a “raça”, cria justamente aquilo que quer ver destruído. Merecemos melhor
solução para os graves problemas que nos assolam.
O Globo, 11 de abril de 2006, citado por http://sschwartzman.blogspot.com/2006/04/peter-fry-e-yvonne-maggie-sobre-cotas.html
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