Amazonas participa da I CONFERÊNCIA NACIONAL DE POLÍTICAS DE PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL
O Amazonas representou-se na I CONFERÊNCIA NACIONAL DE POLÍTICAS DE PROMOÇÃO DA IGUALDADE RACIAL, com 10 delegados, sendo 3 do Governo Estadual, 2 de Governos Municipais e 5 da sociedade civil (sendo 2 afro-descendentes, 2 indígenas e 1 mestiço);
O evento realizou-se em Brasília-DF, no Centro de Convenções Ulisses Guimarães, no período de 30 de junho, 1 e 2 de julho de 2005.
Os mais de 3.000 conferencistas e convidados aplaudiram de pé o discurso dessa militante histórica das populações oprimidas, principalmente os negros. Leia abaixo a integra do discurso.
"Deus continua sinalizando para mim que
estou passando por aqui para cumprir missões. Os companheiros e companheiras do
Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial da Seppir me indicaram para
falar pela sociedade civil. É tarefa de grande responsabilidade pelo fato
histórico deste momento.
É a primeira vez que na história do Brasil um governo cria uma Secretaria
voltada para as questões raciais e não podemos esquecer que esta ação é
resultado da luta do movimento negro.
A importância da Seppir é ainda maior na medida em que compõe um Conselho também
com representação dos povos indígenas, caboclos, ciganos, judeus, árabes e
palestinos.
Todos juntos na construção de mecanismos de combate à discriminação racial e
étnica e na luta pela dignidade de vida das cidadãs e cidadãos brasileiros
Por essa razão, entendo que esta Secretaria não pode nem dever perder o status
de ministérios, caso contrário, será um grande retrocesso.
Quando o nosso país foi descoberto, os que aqui chegaram já encontraram os povos
indígenas, os verdadeiros donos da terra. E o que fizeram com esses povos?
Pois é. Pela primeira vez na história do Brasil povos indígenas encontram um
lugar para falar do doloroso processo de genocídio, resultado do colonialismo, o
maior gerador de discriminação contra esses povos. As vozes dos indígenas serão
ouvidas neste lugar.
Depois chegaram nossos ancestrais africanos acorrentados nos navios negreiros.
Recentemente, sr. Presidente, vossa excelência, esteve na África, na Ilha de
Gorée e entendeu o significado da escravidão.
Ainda há pouco eu falava em cidadania e não posso esquecer que o povo cigano não
tem direito de ser cidadão brasileiro. Eles não têm certidão de nascimento
tampouco carteira de identidade. Eles precisam ter esses direitos!
Todas as pessoas querem viver dignamente na terra onde nasceram. A paz se faz
com justiça.
Nós, brasileiros, entendemos que não deve haver muros segregando e separando
povos. Não deve ser perpetuada a separação entre judeus e árabes, israelenses e
palestinos.
Ontem, na TV vimos a cara do Brasil que o mundo gosta de ver. Vitória da Seleção
Brasileira sobre a Argentina e no final muito samba. O locutor dizia: é bom ser
brasileiro. Que coisa boa, não é?
Mas será que o povo brasileiro continua querendo só isso? Tenho certeza que não.
As mulheres que fazem parte deste povo querem respeito, desenvolvimento e
liberdade.
O povo quer saúde, educação, emprego, segurança, moradia até porque ele tem esse
direito, já que os recursos públicos pertencem aos eleitores. Mas quem é da
comunidade não sabe o que é PIB, taxa Selic, superávit primário.
Entretanto, é necessário que alguém conte para o nosso povo que o Brasil está
mudando. Antes só se falava em cara-pintada. Hoje se fala em cara negra, cara
indígena e cara de gente humilde nas salas das universidades. As cotas estão aí.
Antes a gente só estudava História Geral. Hoje as escolas ensinam a História da
África e dos afrodescendentes. É a lei 10.639.
Antes só se conhecia o Quilombo dos Palmares, em Alagoas. Hoje se sabe da
existência de mais de 1.700 quilombos por todo o Brasil e os quilombolas já
estão recebendo a titulação e a demarcação das terras ocupadas.
Em outras épocas, somente os artistas intelectuais faziam música de protesto.
Hoje, apesar da polícia covarde perseguir e matar jovens negros inocentes, a
juventude negra resiste através do rap e do Hip-Hop e mostrando músicas mais
politizada e realista deste país. Através da Seppir eles conquistaram a
Secretaria e o Conselho da Juventude Negra.
Sabemos que o governo federal dá a concessão para os canais de TV funcionarem.
Não dá para aceitar mais os espaços ocupados para desrespeitar e agredir as
religiões afro-brasileiras. Muito mais que perdão, é preciso que o Estado
brasileiro reconheça a importância das religiões de matriz africana na formação
deste país. A ancestralidade tem de ser respeitada.
Quero finalizar reconhecendo o trabalho da ministra Matilde Ribeiro que
compareceu às 27 conferências estaduais, onde conversou com governadores,
prefeitos, deputados, vereadores, organizações não-governamentais na busca de
parcerias.
A partir de amanhã, o que se espera desta 1ª Conferência é que tudo que aqui for
aprovado seja efetivamente cumprido. Espero em Deus que o resultado da
Conferência possa contribuir para que seja aprovado no Congresso Nacional o
Estatuto da Igualdade Racial, incluindo o capítulo IV, ou seja, o Fundo Nacional
da Igualdade Racial.
Não se faz política pública sem verbas.
Sr. Presidente, quero agradecer a atenção que Vossa Exceleência nos deu no dia
22 de junho, reafirmando que não seriam extintas as secretarias de Promoção da
Igualdade Racial, das Mulheres e dos Direitos Humanos.
Sabemos que a economia do país vai muito bem. Mas é preciso que a sociedade
civil, os movimentos sociais sejam ouvidos. Afinal, fazemos parte deste momento
histórico que foi reconhecido por todo o mundo.
Desejamos, sinceramente, nos próximos cinco anos, continuar chamando o
companheiro Lula de sua Excelência, o Presidente da República.
Mas nossa luta continua.
Fiquem com Deus!"
Fonte: Portal Oficial do Governo do Estado do Amazonas, em 17/11/2005.