HOMO BRASILIS - Genética comprova tese de Gilberto Freyre

Alécio Cunha
REPÓRTER

Quando lançou “Casa Grande & Senzala" na década de 30, o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre nem imaginava que um dia suas idéias sobre a miscigenação e a formação social e cultural do povo brasileiro, apoiada na divisão de três etnias básicas, os vértices branco, negro e índio de um complexo delta racial, ganhassem um aliado científico de grande precisão e rigor: a genética, provando que ele tinha razão em muitas de suas teorias e hipóteses.
Amanhã, a partir das 19h30, será lançado na sede da Academia Mineira de Letras, em Belo Horizonte, o livro “Homo Brasilis", organizado pelo médico, geneticista e pesquisador Sérgio Danilo Pena, professor titular do Departamento de Bioquímica e Imunologia da Faculdade de Medicina da UFMG. Mineiro de Belo Horizonte, 55 anos, ele reuniu ensaios de pesquisadores de várias áreas na publicação, ressaltando seu caráter transdisciplinar. Aspectos genéticos, lingüísticos, históricos e socioantropológicos estão presentes no decorrer do volume.
Em entrevista ao HOJE EM DIA, Sérgio Pena discorreu sobre a importância da natureza plural de seu trabalho, cada vez mais utilizando ferramentas alheias para desvendar os mistérios que ainda rondam a formação do povo brasileiro. Defensor de uma postura dialógica de raciocínio, o médico realiza um autêntico retrato molecular do Brasil. Leia, a seguir, os principais trechos desta entrevista.

“Homo Brasilis" é o resultado de um simpósio da Sociedade Brasileira de Genética que você organizou. Como surgiu a idéia do livro e as principais dificuldades encontradas?
Na verdade, quando eu apresentei a idéia do simpósio à Sociedade Brasileira de Genética, e eles o financiaram, já havia saído em abril de 2000 o nosso primeiro trabalho, “Retrato Molecular do Brasil". Foi propositalmente arranjado para que ele fosse publicado em abril de 2000, quando eram comemorados os 500 anos do Brasil. Ele teve uma repercussão muito grande na imprensa na época, além de uma repercussão social. Pela primeira vez, a gente estava dando uma demonstração científica das propostas sociológicas de Gilberto Freyre. Estávamos provando numericamente que Gilberto Freyre tinha razão, assim como outros antropólogos, como Darcy Ribeiro. Mas era óbvio que a gente tinha áreas de desconhecimento, áreas obscuras. Por exemplo, só para citar o tipo de dificuldade que tivemos, nós caracterizamos na população brasileira um número enorme de linhagens maternas africanas. Tentamos mapear na África estas linhagens maternas, descobrimos que praticamente não existem dados atuais sobre regiões vastas da África.

Por quê?
Por exemplo, Congo e Angola, de onde vieram talvez 60% dos escravos brasileiros, não têm nenhum dado genético, são áreas de ignorância que nós temos. Nosso trabalho mostrou que as matrilinhagens do brasileiro branco eram um terço ameríndias, um terço africanas e um terço européias. Quando os europeus chegaram ao Brasil, eram três milhões de índios, hoje são 300 mil. Mas existem possivelmente 50 milhões de linhagens de ameríndios andando no brasileiro branco, o que mostra, do ponto de vista genético, que a coisa se propagou tremendamente, é uma herança genética que nós temos do ameríndio. Mas o que me interessa agora é que, hoje em dia, quando a gente olha o mapa dos ameríndios no Brasil, só se conhece o que estão na Amazônia, no Brasil central, no centro-oeste. Os ameríndios tupis que estavam nas costas e os tapuias que estavam nas florestas desapareceram. Os estudos que fazemos com os ameríndios de hoje não nos revelam as linhagens que estavam presentes em 1500. Nós estamos abrindo uma janela no passado. Através do brasileiro branco, somos capazes de estudar linhagens de tribos indígenas extintas. Começamos a ver que havia necessidade de buscar conhecimentos de outras áreas. Para entender a pré-história dos ameríndios, será que nós não teremos pistas através da Lingüística?

Os textos de “Homo Brasilis" são regidos por uma ótica pluridisciplinar, que envolve a Genética, a Biologia, a História, a Antropologia, a Geografia, a Demografia e a Lingüística. Trata-se de um campo vasto de disciplinas e idéias que têm um objetivo comum: investigar as origens do que você denomina homo brasilis. Como foi este encontro multidimensional e plural?
Eu gosto, inclusive do termo transdisciplinar, porque as disciplinas se interpenetram. Nós estávamos interessados em fazer o mapeamento do negro brasileiro na África, o mesmo que antropólogos antigos como Arthur Ramos. Seus estudos eram hipotéticos, eles não tinham acesso a números e arquivos. Hoje em dia, com esta nova geração de historiadores quantitativos, que trabalham com números, o quadro melhorou. E o melhor exemplo dela é o próprio Herbert S. Klein, da Universidade de Columbia, que provavelmente é o maior especialista mundial em tráfico de escravos. Foi uma satisfação enorme ter convencido o Herbert a vir para este simpósio e escrever um dos artigos do livro. Por causa deste simpósio, Herbert está estudando a chegada do homem às Américas e está, inclusive, colaborando com geneticistas norte-americanos, coisa que ele nem pensava em fazer na vida. Este paradigma funciona bidimensionalmente. Não só a gente faz uso dos historiadores como vice-versa. No caso dos ameríndios, nós tentamos trazer a contribuição da Lingüística, porque a Lingüística e a Genética são muito próximas e muitas vezes os mapas genéticos e as histórias lingüísticas se superpõem. Por exemplo, o Denny Moore é um lingüista fascinante, um dos gênios da Fundação MacArthur, que veio para Belém estudar os ameríndios. Foi um ganho para o Brasil. Nós, cientistas, na medida em que ficamos mais velhos, ficamos mais preocupados com o significado social de nosso trabalho, não queremos mais viver naquela torre de marfim da academia. Por isso, é muito boa a interação com os antropologistas sociais. Depois deste meu trabalho, eu fui convidado para dar uma palestra na Fundação Gilberto Freyre, lá em Recife.

Em abril de 2000 você e sua equipe de colaboradores lançaram o estudo “Retrato Molecular do Brasil", que dialoga de forma intensa com clássicos da nossa formação, como o “Retrato do Brasil", de Paulo Prado, “Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda, e “Casa Grande & Senzala", de Gilberto Freyre. Vocês deram um novo passo na pesquisa em torno da diversidade étnica brasileira, apresentando um instrumental científico até então pouco usual. De que forma vê esta interação entre o humanismo das obras citadas e os recursos da biologia molecular?
Eu acho que eles são complementares. Nós estamos, na verdade, lidando com uma fronteira porque o que estamos vendo são marcadores genéticos que não têm uma influência genética. Isto deve ficar bem claro, são apenas marcadores de ancestralidade. Eles não têm nenhum significado profundo. Por exemplo, eu sei que a minha ancestralidade é ameríndia, coisa que eu não sabia. Isto me deixou satisfeito ,porque me senti mais brasileiro ainda, mais enraizado. Mas isto não diz nada sobre a minha genética. Na medida em que a gente começa a trabalhar com grupos étnicos, que são culturas com traços e raízes genéticas, as coisas vão ficando mais e mais complicadas. Nós evitamos usar a noção e o termo de raça. Sob o ponto de vista genético, raças não existem, mas como construções sociais e culturais elas existem. Aí a gente começa a ter conflitos. Alguns dos trabalhos que estamos desenvolvendo atualmente tratam justamente da diferença que há entre ser negro, que é uma observação visual baseada em cor, e cor no Brasil é sempre entre aspas e com C maiúsculo, porque inclui não só a cor da pele, como também a feição do cabelo, o formato dos lábios, do nariz. De acordo com nosso trabalho “Retrato Molecular do Brasil", 30% dos brasileiros brancos são afro-descendentes.

E como vê a relação deste estudo com o movimento negro no Brasil?
O movimento negro brasileiro está seguindo muito os fatos do movimento negro norte-americano. Inclusive, aquela denominação, que hoje é a favorita nos Estados Unidos, african-americans é uma denominação de ancestralidade e não visual, mas no Brasil, a coisa é muito mais visual do que pela ancestralidade. Tem um trabalho muito interessante do Simon Schwartz, que é um sociólogo mineiro, que trabalha no Rio de Janeiro, que mostrou que se você pegar negros brasileiros e perguntar quais são suas origens, menos de 10% denominaram a África. Esta denominação de afro-descendência no Brasil não faz muito sentido, porque não existe tanta identificação com as raízes africanas, assim como os norte-americanos que têm uma grande identificação com a raça, a ponto de estudarem nas universidades línguas originais africanas. São muito interessantes estas visões diferentes que também são complementares.

O que a genética pode oferecer nestes estudos que as pesquisas de natureza humanistas não puderam. Qual é o limite, o ponto de estrangulamento destas maneiras diversas de fitar o humano?
Quando a gente fala em trabalhar com a genética ao nível do populacional, tem de se tomar muito cuidado, porque ocorreram os movimentos eugênicos no início do século XX. Ela pegou este nome ruim porque merecia, já que existiam muitos geneticistas racistas e o movimento foi muito daninho. De uma certa maneira, Hitler se baseou em dados pseudogenéticos e pseudocientíficos para fazer a perseguição aos judeus e depois o apartheid na África do Sul usou argumentos deste tipo. Por outro lado, estamos usando a genética para fins de mapeamento demográfico, de evolução de grupos, de nascimento de novas populações. São simplesmente marcadores e não estamos querendo entender como o comportamento de certas pessoas e de certos grupos vai influenciar uma sociedade. Tenho uma posição bastante ambientalista, vejo o comportamento, a cultura, a sociedade, como coisas possíveis de serem plurais e variáveis. Sou contra qualquer tentativa de normatização ou homogeneização da sociedade, que é o que estes movimentos de direita estão sempre tentando fazer.

No final da versão atualizada, ano passado, de seu artigo “Retrato Molecular do Brasil", você garante que o Brasil certamente não é uma democracia racial e ressalta que gostaria de acreditar que se muitos brancos brasileiros que possuem DNA mitocondrial ameríndio ou africano se conscientizassem disso, poderiam valorizar mais nossa diversidade étnica. Até que ponto os estudos filogeográficos e genéticos podem auxiliar na redução destes contrastes sociais?
Isto é a minha face utópica, acho que a gente está sendo inocente. Aliás, é uma boa pergunta se seria possível você abolir o racismo numa sociedade. E é interessante saber também que, dentro de comunidades negras, existe preconceito de cor entre os negros mais claros e os mais escuros, os mais africanizados e os menos. Uma prova patológica disso talvez seja o caso de Michael Jackson, um negro que queria virar branco, usando técnicas da Medicina como a cirurgia plástica. Todo mundo é igual perante a lei, mas as pessoas são igualmente diferentes. Sou de uma maneira, você é de outra, e nós não vamos tentar agora ficar cegos às diferenças entre nós, mas simplesmente ficar satisfeitos que existam estas diferenças. São necessárias pessoas diferentes para fazer o mundo. Se a gente tivesse uma sensibilidade, um respeito e uma elegia à diversidade, a tolerância seria maior, não só racial, mas também social.Se você tirasse da sociedade as loucuras, as grandes psicoses, as esquizofrenias, a sociedade não teria um Nietzsche, um Van Gogh. Outro exemplo que cito é que indivíduos que possuem uma pré-disposição muito grande à violência, são nocivos na sociedade, mas podem ser úteis numa guerra.

Biologia desmistifica existência de raças

Nos séculos 18 e 19, o Brasil era visitado com certa regularidade por artistas viajantes, que registravam em pinturas, desenhos e mapas a fauna e a flora de uma nação ainda exótica aos olhos europeus. Nomes como Jean-Baptiste Debret, Franz Keller, James Ensor, Spix, Martius, Modesto Brocos Y Goméz, entre outros, relatavam no plano pictórico suas impressões sobre hábitos e costumes dos habitantes do Brasil.
Já éramos uma nação fortemente marcada pelo espírito da miscigenação, com brancos, índios e negros vivendo o que, por muito tempo, ficou conhecido como uma democracia racial e cordial, embora hoje saibamos que os conflitos e tensões nunca deixaram de habitar o relacionamento interétnico.
O livro “Homo Brasilis", organizado pelo médico e geneticista belo-horizontino Sérgio Danilo Pena, funciona como uma excelente e crítica introdução a um tema tão caro a nós, brasileiros.
Além do organizador, o livro “Homo Brasilis" possui ensaios de cientistas, professores e intelectuais como os norte-americanos Herbert S. Klein e Denny Moore, referências internacionais em suas áreas de atuação, lado a lado com brasileiros como Antônio Amorim, Eduardo Tarazona-Santos, Fabrício Santos, Jair de Souza Ramos, Juliano Alves Silva, Luciana Storto, Marcos Chor Maio, Ricardo Ventura Santos e Vânia F. Prado.
No prefácio do volume, o organizador Sérgio Danilo Pena ressalta os antecedentes históricos que norteiam sua pesquisa. “Agora, cinco séculos após a chegada dos europeus à Terra Brasilis, se contemplarmos a estrutura de sua população, podemos verificar que o Brasil representa um verdadeiro ponto de encontro", salienta.
Pena lembra que o homem moderno teve sua origem única e relativamente recente por volta de 100 mil anos atrás, na África. A partir daí o ser humano migrou e ocupou progressivamente a Ásia, a Europa, a Oceania, as Américas e todos os rincões da terra. “Esta diáspora foi acompanhada de diversificação morfológica, fruto da adaptação às condições climáticas e ambientais das diferentes regiões do mundo. Mas o genoma permaneceu igual, ou melhor, igualmente diferente entre os indivíduos", observa.
O professor frisa também que estudos de Genética Molecular Moderna demonstram que mais de 90% da diversidade genômica humana ocorre entre indivíduos e não entre populações de diferentes continentes. Trocando em miúdos: do ponto de vista biológico, inexistem raças humanas. “Não houve tempo suficiente para a formação e, agora, com a enorme mobilidade geográfica humana, nunca irá acontecer", garante Sérgio.

A importância da linguística

Para o lingüista norte-americano Denny Moore, atualmente morando em Belém do Pará, onde atua no Museu Paraense Emílio Goeldi, a Lingüística possui grande poder de conexão com outras arestas do conhecimento. “É possível, através da Lingüística, formular hipóteses sobre o passado, com base em dados de línguas atuais ou de línguas conhecidas através de estudos históricos", afirma.
No raciocínio de Moore, as hipóteses são elaboradas, primeiramente, sobre a pré-história das línguas, mas pode-se, também, chegar a conhecer como viviam os falantes da língua do passado, com sua cultura, adaptação ecológica e meio-ambiente. “A Lingüística pode ser entendida como uma sub-área da Antropologia, tendo muito a ganhar, ao cooperar com disciplinas afins como a Arqueologia, a Etnologia e a Antropologia Física, bem como a História, a Etnobotânica e a Genética", assinala.
Outro ensaísta norte-americano, professor da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, Herbert S. Klein, assinala em seu artigo, presente ao livro organizado por Sérgio Pena, algumas das origens africanas dos escravos brasileiros. “O tráfico de escravos, no Atlântico, trouxe cerca de quatro milhões de africanos para o Brasil desde o início do século XVI até meados do século XIX. O tráfico português de escravos para as Américas foi o mais antigo, o de mais longa duração e o maior em termos numéricos", assinala.
Klein exemplifica que, ao contrário de migrações para outras colônias européias nas Américas, a migração para o Brasil envolveu africanos vindos das principais regiões do Ocidente, Oriente e sudoeste da África, bem como da região de Moçambique. “Diferente de outros europeus, os portugueses foram os únicos a efetivar uma colonização africana, limitada, antes do século XIX, estabelecendo uma posição precária, mas permanente, em Angola, desde o início do século XVI", explica.

O racismo científico

O antropólogo Ricardo Ventura Santos analisa no livro a íntima relação entre mestiçagem, degeneração e viabilidade na constituição da nação brasileira. Ele foca suas análises tendo como parâmetro a conexão entre a antropologia e o Museu Nacional, no Rio de Janeiro (RJ). “Os antropólogos do Museu Nacional não foram receptáculos passivos de esquemas teóricos raciais em voga no período que vai de 1870 a 1930", assinala.
“Pelo contrário, idéias foram minadas ou enfatizadas em função de uma complexa rede de vinculações que extrapolavam os limites do Museu Nacional enquanto instituição, e da Antropologia enquanto disciplina", complementa Ventura Santos, lembrando que havia uma constante dinâmica na qual a ciência e os debates políticos e sociais retroalimentavam-se. “Ou, utilizando um termo mais apropriado ao discurso antropológico de então, hibridizavam-se, mesclavam-se, miscigenavam-se", afirma.
O sociólogo Jair de Souza Ramos, do Departamento de Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), comparece ao livro com seu ensaio “O Brasil Sob o Paradigma Racial: Sociologia Histórica de uma Representação", apresentado no 47º Congresso da Sociedade Brasileira de Genética, realizado em Águas de Lindóia (SP) em 2000.
“A prática de interpretar o Brasil a partir de representações raciais é facilmente identificável nos escritos da maioria dos intelectuais brasileiros do primeiro quartel do século XX. Tais representações forneceram um eixo fundamental de constituição das imagens de uma nação brasileira. Assim, muitos dos que pensaram o país, nas décadas iniciais de constituição do regime republicano, viam nas raças, que se acreditavam constituírem a população brasileira, nas suas qualidades e na natureza de suas relações, o fundamento da unidade e da identidade nacionais", escreve o sociólogo.
O autor analisa, em seu artigo, elementos do racismo científico brasileiro, como as idéias eugênicas, traçando um vasto panorama destas questões nas primeiras décadas do século XX. “Enquanto herdeiras do Império Luso-Brasileiro, as elites republicanas tiveram como tarefa produzir um povo, significando aí a produção do reconhecimento de uma identidade social comum entre populações diversas física e culturalmente", afirma.
Para ele, as sociedades que emergem da conquista de suas independências são marcadas por uma estratificação social tributária das posições diferenciais, ocupadas por cada população envolvida na sua conquista ou dela aliada. “Acima de tudo, cabe chamar atenção para o fato de que tais sociedades são marcadas por uma estratificação social que é expressão de uma hierarquização entre populações física e culturalmente diferenciadas", assinala.
“Nas sociedades de conquista, a hierarquia social é uma duplicação da hierarquia étnica. Temos assim, os fundamentos sociais de um discurso racista, porque toda e qualquer justificação ideológica do status quo que repousasse sobre a naturalização da hierarquia social implicava a conseqüente naturalização de uma hierarquia entre populações. Isso significa dizer que as doutrinas do racismo científico, quando aportam às praias brasileiras, encontram aqui, terreno sólido, posto que ancorado na própria realidade vivida por nossos elites", sintetiza o cientista social.

Ensaístas invocam Brocos Y Goméz

Ventura Santos e Marcos Chor Maio, escreveram o ensaio que encerra o livro “Homo Brasilis": “Injetando Sangue no Mito da Democracia Racial? Genética, Relações Raciais e Política no Brasil Contemporâneo". Eles começam seu texto invocando uma pintura em óleo sobre tela do pintor espanhol Modesto Brocos Y Goméz, “A Redenção de Can", pintada em 1895, atualmente pertencente ao acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro (RJ).
Quatro personagens estão representados na tela, tendo ao fundo uma parede de barro. De pé, à esquerda, vê-se uma velha negra, que olha para o alto com os braços parcialmente levantados, como que agradecendo aos céus por uma graça alcançada. No outro extremo, à direita, sentado e parcialmente de costas para os demais, está um homem na faixa dos 35 anos. De pele branca, sua aparência lembra a de um migrante ibérico ou mediterrâneo.
Os ensaístas chamam a atenção para o fato de que o centro da tela em questão é ocupado pelas figuras de uma mãe e de seu filho. “A mãe, fenotipicamente mulata, lembra uma Madona renascentista com o menino Jesus, de pele branca, em seu colo", escrevem. Para eles, a tela de Brocos Y Gómez insinua o ideal de branqueamento. “A velha negra agradece por sua filha, mulata clara, portanto já parcialmente branqueada, ter se casado com um migrante branco e gerado uma criança de tez branca", salientam.

Lançamento de “Homo Brasilis" - De Sérgio Danilo Pena. Amanhã, às 19h30, na Academia Mineira de Letras (Rua da Bahia, 1466. Centro. Telefone: 3222-5674).

De Hoje em Dia, Belo Horizonte, 11/08/2002.

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