MESTIÇOFOBIA
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O sociólogo Florestan Fernandes foi por duas vezes deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Nesta entrevista em 1980, defende a 'reeducação' dos mulatos e associa a eles "um comportamento egoístico e individualista". Embora reconheça que "dentro da população negra e mestiça não há homogeneidade", defende que os mestiços, para atender "o ideal de um movimento político", sejam levados a se identificar como negros. As idéias de Florestan Fernandes têm sido refletidas na política mestiçofóbica do presidente Lula. |
A CLASSE MÉDIA E OS MULATOS:
A QUESTÃO DOS "NEGROS DE ALMA BRANCA"*
Você enfatiza a relação raça-classe, mas, quando se fala da "classe
média negra", tem de se levar em conta que ela sempre cumpre um papel de
legitimação da ordem racial existente.
- No livro A integração do negro na sociedade de classes,
na parte relativa ao "novo negro", vimos que ele cumpre realmente este
papel de legitimação, mas também há um outro aspecto. Ele é um negro que
conheceu os movimentos de protesto norte-americano na década de 60 e viu que
estes movimentos não tiveram ressonância, viu que o meio negro não teve
maturidade, autonomia suficiente para levas estes movimentos às últimas conseqüências
e se retraiu, utilizando as técnicas consagradas pela ordem existente. O branco
endossa, no Brasil, aquilo que chamei de "exceção que confirma a
regra", ou seja, o melhor talento é separado do meio negro e jogado na
sociedade global. Este indivíduo que "sobe" destrói todos os vínculos
com o meio de origem e se redefine como um negro de alma branca. Isto gera no
meio negro a aceflização da população de cor. Mas, e este é o outro
aspecto, do ponto de vista do branco este negro que "subiu"também é
um problema, pois o negro não aceita mais viver a vida social dirigida sob as
expectativas do branco. O negro quer se afirmar em condições competitivas,
criando muitos problemas para o branco; ele chega a preferir o isolamento como
indivíduo, como família ou mesmo como grupos dentro de associações negras.
Enfim, ele prefere se isolar a ter de aceitar o jogo do branco. Nisto eu vejo um
papel construtivo; este negro está vivendo um drama histórico, ele é um indivíduo
de transição. Ele não tem outra alternativa para subsistir na sociedade. Se a
sociedade abre caminhos, ele tem que ir por estes caminhos; neste momento, esse
"novo negro" é importante, ele está educando o branco na percepção
do negro, na redefinição do negro e está contribuindo para que a distância
racial diminua.
Mas a maioria dos "novos negros" repudiam os movimentos políticos
de protesto.
- Sim, eles não querem fazer parte dos movimentos de
protesto e inclusive desenvolveram toda uma concepção de que todos os
movimentos dão "azar" e que ao invés de ajudarem atrapalham, e que o
problema brasileiro não é bem este, que se vários indivíduos lograrem êxito
então a coletividade como um todo redefine sua posição social. É uma réplica
da idéia do branco de que a solução do problema racail deve ser gradual e que
a longo prazo o Brasil não terá problema algum. Então aí há um aspecto
negativo e principalmente no uso que um regime ditatorial possa fazer. Os negros
que apóaim este regime estão afinados com as elites no poder. São indivíduos
que levaram o negro, por exemplo, neste período de ditadura, a ser um dos
grupos que deu base popular ao golpe militar de 64 com a manifestação do dia
13 de maio que contou com umas d5 mil pessoas.
Por isso, o problema que se apresenta ao movimento negro não
é isolar estes elementos, eles têm de ser recuperados, através de uma educação
política. Não adianta nada hostilizar esses elementos e jogá-los do lado da
reação dos brancos. O problema é criar uma consciência de responsabilidade
para que esses elementos vejam de outra forma a sua importância para o meio
negro, para que eles aceitem um ônus real pela luta de igualdade racial, porque
na verdade eles aproveitam as CHANCES, mas não estão lutando por uma autêntica
democracia racial. Se els realmente fossem conquistados pelo movimento
negro, e este movimento tivesse envergadura para absorver negros de classes
diferentes, a raça sendo o denominador comum, eles teriam papéis eficienties e
importantes. Inclusive, todos eles têm furstrações graves. O que eles não
conseguem é converter estas frustrações numa linguagem política. É esta função
que o movimento de protesto tem de realizar. Dentro dele, os grupos que podem
exercer uma liderança intelectual têm de estar calibrados para equacionar os
mais variados tipos de problemas.
Como você vê a dificuldade de caracterização do negro brasileiro, já que
a miscigenação é um dos empecilhos à consciência racial no Brasil?
- Numa pesquisa que fiz há muitos anos, encontrei uma grande
ambigüidade porque o negro e o mulato não aceitavam ser chamados de negros ou
mulatos. Houve um progresso muito grande no Brasil, desde então - e tudo como
conseqüência das reviravoltas que ocorreram por causa das revoluções
africanas, dos movimentos negros dos EUA e África do Sul -, quer dizer, o
orgulho de ser negro acabou se redefinindo e se dissiminando pelo mundo. Mas na
década em que fizemos a pesquisa certas pessoas até reagiram mal se disséssemos
que era um negro, mesmo que fosse em termos de fenótipo. Não podíamos chamar
de negro, mas de "homem de cor". Havia também pessoas que dentro das
representações sociológicas brasileiras, e com uma maior tolerância dos
brancos, seriam incluídas neste grupo mas que queriam ser consideradas negras.
São aqueles que os brancos chamas de "pretos disfarçados".
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"Se o preconceito no Brasil fosse mais definido e assumisse a forma que assume nos EUA e África do Sul, o termo negro seria aceito por toda a população negra e mestiça. O ideal de um movimento político é esta unificação, embora o mulato no Brasil não esteja subjetivamente preparado para isto." |
Agora do meu
ponto de vista, como nós não temos um referencial claro, eu preferi usar
as palavras negro e mulato. Se o preconceito no Brasil fosse mais definido
e assumisse a forma que assume nos EUA e África do Sul, o termo negro
seria aceito por toda a população negra e mestiça. O ideal de um
movimento político é esta unificação, embora o mulato no Brasil não
esteja subjetivamente preparado para isto. Objetivamente, porém, a
partcipação do negro e do mulato na desigualdade é desigual. Se considerarmos as estatísticas da população economicamente ativa, por exemplo, ao nível do empregador, vamos encontrar uma proporção maior de mulatos que de negros. Isto não só em São Paulo, mas na Bahia e em outros Estados. A mesma coisa acontece nas oportunidades educacionais, apesar de o mulato sofrer uma violenta discriminação do branco. Quando se comparam especificamente negros e mulatos, há uma discriminação em favor do mulato. |
Agora do meu ponto de vista, como nós não temos um
referencial claro, eu preferi usar as palavras negro e mulato. Se o preconceito
no Brasil fosse mais definido e assumisse a forma que assume nos EUA e África
do Sul, o termo negro seria aceito por toda a população negra e mestiça. O
ideal de um movimento político é esta unificação, embora o mulato no Brasil
não esteja subjetivamente preparado para isto. Objetivamente, porém, a
partcipação do negro e do mulato na desigualdade é desigual.
Se considerarmos as estatísticas da população
economicamente ativa, por exemplo, ao nível do empregador, vamos encontrar uma
proporção maior de mulatos que de negros. Isto não só em São Paulo, mas na
Bahia e em outros Estados. A mesma coisa acontece nas oportunidades
educacionais, apesar de o mulato sofrer uma violenta discriminação do branco.
Quando se comparam especificamente negros e mulatos, há uma discriminação em
favor do mulato.
É interessante ver como na preferência por cônjuges
isto surge. Tanto a mulher quanto o homem, entre negros e mulatos preferem casar
com brancos, a segundo escolha com mulato e a terceira escolha com negro e isto
de uma maneira que até dá origem a padrões estabelecidos. No meu trabalho uso
dados estatísticos que mostram isto, não só a preferência nos
intercasamentos se definindo nesta linha. As alternativas de escolha fazem com
que para o negro às vezes seja difícil ter uma mulher branca, então ele fica
com uma mulata. Só em últim caso é que ele vai preferir uma negra.
| O que o professor Roger Bastide chamava de "linhas de competição pelo sexo" em termos de cor, se reproduz em várias direções. Por isso, dentro da população negra e mestiça não há homogeneidade. Criar esta homogeneidade é um problema preliminarmente político: trata-se de levar o mulato a se identifica não com o branco, não com a rejeição à luta contra o preconceito, mas levá-lo a aceitar a sua condição de negro e fazer com que sejam negros todos os que possuam caracteres de origem. Isto seria um elemento importante, mas acontece que não ocorre. Na nossa pesquisa, os problemas psicológicos que nóes encontramos ou foram de mulatos que tinham pâmnico de ter descoberto que ele snão possuíam a situação racail que aparentavam ou então de mulatos que enfrentavam atritos muito violentos por causa da diferenç de cor do pai, da mãe ou mesmo dos filhos. Dramas pessoais graves, incríveis. Certo indivíduo que deixa de se relacionar com a mãe ou então que na rua caminha afastado da família. Vários problemas familiares com o filho mais claro, a idéia de purificação, que é uma maneira de absorver as avaliações do meio branco. |
"Por isso, dentro da população negra e mestiça não há homogeneidade. Criar esta homogeneidade é um problema preliminarmente político: trata-se de levar o mulato a se identifica não com o branco, não com a rejeição à luta contra o preconceito, mas levá-lo a aceitar a sua condição de negro e fazer com que sejam negros todos os que possuam caracteres de origem." |
Portanto, não posso dizer que o negro e o mulato vivem o mesmo drama, mas posso dizer que o mesmo drama cabe aos dois. Subjetivamente o mulato pode não absorver este componente dramático de sua vida, mas objetivamente ele leva uma vantagem em relação ao negro, isto ele leva. Se eu pegar algumas estatísticas poderemos ver, por exemplo, que no que se refere às oportunidades educacionais, no item dos diplomados, fica patente um nível de competição mais definido. Vê-se que, quando se passa do ensino primário ao de nível médio, as diferenças entre negros e mulatos aumentam e principalmente quando se passa do nível médio ao nível superior. Ou seja, as oportunidades são distribuídas desigualmente, favorecendo mais o mulato e dando-lhe meios de competição e de ascenção que o grosso da população negra não possui.
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"(...) Como fazer para reeducar o mulato, como levá-lo a sair de um comportamento egoístico e individualista?" |
Tudo isto
cria um problema político aos movimentos de protesto: como fazer para
reeducar o mulato, como levá-lo a sair de um comportamento egoístico e
individualista? Como levá-lo a ter uma visão mais responsável do
problema do negro e do mulato no Brasil? É preciso ver que, em todas as sociedades racialmente heterogêneas, o mulato tem uma importância relativamente grande, porque ele vive o drama da marginalidade racail de uma forma mais intensa e isto faz com que ele oscile muito. No Brasil, por exemplo, as acusações recíprocas de negros e mulatos atestam isto. O mulato diz que não se pode confiar no negro porque ele é ignorante; e o negro diz que não pode confiar no mulato porque na hora H ele tira o corpo fora. Apesar disso, as análises psicológicas e sociológicas demonstram que o mulato vive mais intensamente a marginalidade racial e ele aponta com mais profundidade os problemas que afetam as populações discriminadas. |
Por isso é importante o
desenraizamento do mulato. Ele sai mais facilmente da condição isolada e
tradicional de grande parte da população negra, já que esta não possui as
mesmas oportunidades de ressocialização. Certo professor
norte-americano, que ando fazendo uma pesquisa aqui no Brasil sobre o uso de
palavras para descrever os mestiços, encontrou um número enorme de palavras.
Eu não concordo com as conclusões a que ele chegiu, mas a existência deste
npumero enorme de palavras indica que há uma ambivalência muito grande. Quando
utilizado as palavra "negro" e "mulato" eu sei que os
problemas não são iguais, amnbos participm dos mesmo problemas mas em
intensidades diferenrtes.
É preciso que os movimentos negros de protesto
consigam criar certas percepções básicas que tenham validade universal,
superando assim este dilema.
(...)
*Entevista ao jornal Em tempo, São Paulo, de 31-07 a 13-08-1980. (...) O
trecho ora publicado corresponde à segunda parte da entrevista.
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Mestiçofobia - DENUNCIE A POLÍTICA DO GOVERNO LULA CONTRAA MESTIÇOS
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RACISMO O PL do Estatuto da Igualdade Racial oficializa o fim dos mulatos, caboclos e de todos os mestiços do Brasil ESTE É O ESTATUTO DA LIMPEZA ÉTNICA DOS MESTIÇOS
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