ÍNDIO, ÍNDIO-DESCENDENTE OU MESTIÇO? (II PARTE).
Nossos colonizadores eram extremamente eurocentristas; para muitos bastava ter nascido na América (ainda que filhos de europeus) para ser classificado como “criolo”. A polêmica se índio era humano ou não só foi dirimida com edição de uma bula papal. Os africanos, escravos, também eram considerados animais brutos.
Antonello Gerbi (O NOVO MUNDO, Cia Letras/1996) relata em detalhes a visão eugenista e preconceituosa dos monarquistas e pensadores europeus sobre os povos negro, indígena e mestiço das Américas, até o século 19.
O século 21 ficará inscrito como o século da afirmação mestiça. Avançados estudos sobre DNA das populações sob diversas perspectivas (povoamento, colonização, fusão etc) asseguram que a população mundial é progressivamente mestiça, sobretudo nos continentes americanos.
Hoje o “mestiço” é visto como algo positivo. A cada dia um maior número de pessoas elabora pensamento e arte sob a perspectiva “mestiça”. Lila Downs (filha de uma índia mixteca/México com europeu) expressa, de forma brilhante, essa condição na sua poética de compositora e cantora, da mesma forma que Maria Betânia, uma “mestiça indígena-cabôca” que valorizou os pontos de umbanda das Cabôcas Jurema e Janaina no CD “BRASILEIRINHO” (2005). Jurema Paes, também baiana e doutoranda pela PUC/SP, trabalhou conceitos das obras do historiador francês Sérgio Gruzinski para produzir o CD/MESTIÇA, recentemente. Amálio Pinheiro (PUC/SP) tem pesquisado a influência mestiça na dança contemporânea, “... parte da complexidade de um continente mestiço...” para formar “...uma nova tessitura” expressa no seu projeto sobre frevo (Vide CONTINENTE MULTICULTURAL, Recife/abril/2007). Não são poucos os artistas plásticos que se autodefinem como “mestiços”.
Foucault fala dos mergulhos que realizamos através das “... bordas [da nossa cultura] onde não mais reconhecemos nosso rosto [...] nos estranhamos e nos tornamos estrangeiros em relação a nós mesmos” (Revista Educação/Especial Foucault/SP/2007).
O mestiço (desde que consciente dessa condição) certamente estará imune do sofrimento de buscar uma raiz primicial que jamais estará refletida no seu espelho; suas raízes são múltiplas. Somos mais mestiços do que imaginamos.
José de Arimatéa / unidbrasil@yahoo.com.br
PUBLICADO NO WWW.JORNALDAMIDIA.COM.BR (SALVADOR-BA)
MURAL UNID ONLINE Nº75 – Salvador/Ba, 1º de maio/2007 – ÍNDIO, ÍNDIO-DESCENDENTE OU MESTIÇO? (II PARTE).