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Voltaire |
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As diferentes espécies de homem |
Descendo sobre este montículo
de lama e não tendo maiores noções a respeito do homem, como este não
tem a respeito dos habitantes de Marte ou de Júpiter, desembarco às
margens do oceano, no país da Cafraria, e começo a procurar um homem.
Vejo macacos, elefantes e negros. Todos parecem ter algum lampejo de uma
razão imperfeita. Uns e outros possuem uma linguagem que não compreendo
e todas as suas ações parecem igualmente relacionar-se com um certo fim.
Se julgasse as coisas pelo primeiro efeito que me causam, inclinar-me-ia a
crer, inicialmente, que de todos esses seres o elefante é o animal
racional. Contudo, para nada decidir levianamente tomo filhotes dessas várias
bestas. Examino um filhote de negro de seis meses, um elefantezinho, um
macaquinho, um leãozinho, um cachorrinho. Vejo, sem poder duvidar, que
esses jovens animais possuem incomparavelmente mais força e destreza,
mais idéias, mais paixões, mais memória do que o negrinho e que
exprimem muito mais sensivelmente todos os seus desejos do que ele.
Entretanto,
ao cabo de certo tempo, o negrinho possui tantas idéias quanto todos
eles. Chego mesmo a perceber que os animais negros possuem entre si uma
linguagem bem mais articulada e variada do que a dos outros animais. Tive
tempo de aprender tal linguagem e, enfim, de tanto observar o pequeno grau
de superioridade que a longo prazo apresentam em relação aos macacos e
aos elefantes, arrisco-me a
julgar que efetivamente ali está o homem. E forneço a mim mesmo esta
definição:
O homem é um animal preto
que possui lã sobre a cabeça, caminha sobre duas patas, é quase tão
destro quanto um símio, é menos forte do que outros animais de seu
tamanho, provido de um pouco mais de idéias do que eles e dotado de maior
facilidade de expressão. Ademais, está submetido igualmente às mesmas
necessidades que os outros, nascendo, vivendo e morrendo exatamente como
eles.
Após ter passado certo
tempo entre essa espécie, desloco-me rumo às regiões marítimas das Índias
Orientais. Surpreendo-me com o que vejo: os elefantes, os leões, os
macacos e os papagaios não são exatamente como eram na Cafraria; mas o
homem, esse parece-me absolutamente diferente. Agora são homens de um
belo tom amarelo, não possuem lã, mas têm a cabeça coberta de grandes
crinas negras. Parecem ter sobre as coisas idéias totalmente contrárias
às dos negros. Sou, portanto, forçado a mudar minha definição e a
classificar a natureza humana sob duas espécies: a negra com lã e a
amarela com crina.
Mas, na Batávia, em Goa e
em Surata, ponto de encontro de todas as nações, vejo uma grande multidão
de europeus. São brancos, não possuem lã ou crina, mas cabelos louros
bem soltos e barba no queixo. Mostram-me também muitos americanos, que não
possuem barba. Eis minha definição e minhas espécies de homem bastante
ampliadas.
Em Goa encontro uma espécie
ainda mais singular do que todas essas. Trata-se de um homem vestido com
uma longa batina negra, dizendo-se feito para instruir os outros. Todos
esses homens que vedes, diz-me ele, nasceram de um mesmo pai. E, então,
conta-me uma longa história. No entanto, o que diz esse animal soa-me
bastante suspeito. Informo-me se um negro e uma negra, de lã negra e
nariz chato, engendram algumas vezes crianças brancas, de cabelos louros,
nariz aquilino e olhos azuis, se nações imberbes vieram de povos
barbados e se os brancos e as brancas engendraram povos amarelos.
Respondem-me que não, que os negros transplantados, por exemplo, para a
Alemanha continuam produzindo negros, a menos que os alemães se
encarreguem de mudar a espécie, e assim por diante. Acrescentam que um
homem instruído nunca diria que as espécies não misturadas degeneram, a
não ser o Padre Dubos, que disse tal besteira num livro intitulado Reflexões
sobre a Pintura e sobre a Forma etc.
Quer me parecer que agora
estou muito bem fundamentado para crer que os homens são como as árvores:
assim como as pereiras, os ciprestes, os carvalhos e os abricoteiros não
vêm de uma mesma árvore, assim também os brancos barbados, os negros de
lã, os amarelos com crina e os homens imberbes não vêm do mesmo homem.
[Nota de Voltaire: Todas
essas diferentes raças de homens produzem juntas indivíduos capazes de
se perpetuar, o que não pode ser dito a respeito das árvores de
diferentes espécies. Mas teria havido um tempo em que só existissem um
ou dois indivíduos de cada espécie? Isto ignoramos totalmente].
Voltaire, Tratado de Metafísica, cap. I (Os Pensadores). São Paulo: Abril, 1978, p.62,63. FR |
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Beleza, Belo |
Perguntem a um sapo o que
é a beleza, o belo admirável, o to kalón. Responder-vos-á que
é a fêmea dele, com os seus dois grandes olhos redondos, salientes,
espetados na pequenina cabeça, um focinho largo e achatado, barriga
amarela, dorso acastanhado. Interrogai um preto da Guiné: para esse, o
belo é uma pele negra, oleosa, os olhos sumidos nas órbitas, venta
esborrachada.
Interroguem o diabo: dirá
que o belo é um par de cornichos, quatro garras afiadas e um rabiosque
enrolado. Consultem, por fim, o filósofo: responder-vos-á por uma
algaraviada desconexa, numa gíria arrevesadíssima; é-lhes indispensável
algo de conforme ao arquétipo do belo em essência, ao to kalón.
Um dia assistia eu a uma
tragédia na companhia de um filósofo. “- Como isto é belo!”
exclamava
ele. “- Mas onde está a beleza disto?” - perguntei-lhe. “- Está em
que o autor atingiu a finalidade que pretendia.” No dia seguinte o tal
filósofo tomou um purgante que lhe fez grande efeito. "Atingiu a
finalidade", comentei. “Ora, aí está um purgante belo!” Então
percebeu que não se pode dizer que uma purga é bela e que para darmos a
qualquer coisa o título de beleza será indispensável que vos cause
admiração e prazer. Concordou comigo que a tal tragédia lhe
proporcionara esses dois sentimentos, e que consistia nisso o to kalón,
o belo.
Fizemos uma viagem pela
Inglaterra: ali vimos representar a mesma peça, traduzida na perfeição;
pois obrigou a bocejar todos os espectadores. “Oh! Oh!” exclamou o
nosso filósofo, “o to kalón não é o mesmo para ingleses e
franceses." Concluiu, depois de refletir maduramente no caso, que o
sentimento do belo é coisa muito relativa, do mesmo modo que aquilo que
é decente no Japão é indecente em Roma, e o que está em moda em Paris
é detestado em Pequim; e desistiu de elaborar um longo tratado sobre o
belo que em tempos projetara fazer.
Voltaire,
Dicionário Filosófico (Os Pensadores). São Paulo: Abril, 1978,
p.110.
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Biografia de VOLTAIRE |
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COMENTÁRIO NOSSO. O primeiro texto, As diferentes espécies de homens, é um bom exemplo da contribuição do Iluminismo ao racismo. Voltaire contesta um dogma cristão: a crença de que todos os homens tenham uma origem comum; ele coloca as diferentes raças humanas como diferentes espécies. É significativo que este aspecto do antropocentrismo (que seria melhor intitulado 'brancocentrismo'), que se contrapôs à chamada "Idade das Trevas", seja tão pouco citado em nossos livros de ciências humanas. As religiões universalistas (como o Cristianismo, o Islã, o Budismo, p. ex.), ao contrário das religiões nacionalistas, tendem a estimular as integrações étnicas e as misturas raciais. |
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