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Júlio Ribeiro |
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I |
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Ao
longe, quase indistinto a princípio, mas progressivamente acentuado,
fez-se ouvir um chiar agudo, contínuo, monótono, irritante. A crioulada
reunida em frente ao engenho levantou uma gritaria infrene, tripudiando de
júbilo. A Carne, cap. 5. |
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II |
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Detestava
o furu-furu, mas em compensação adorava o ponto, o
puxa-puxa. Quando o melaço começava na esfriadeira a engrossar, a
cobrir-se de espuma amarela, ela corria-lhe o índice da mão direita pela
superfície quente, tirava urna dedada grande, lambia-a com prazer dando
estalinhos com a boca, fechando os olhos. Um dia um preto que tinha a seu
cargo guiar a carroça de bagaço para o bagaceiro, e que trazia ao pé
esquerdo uma grande pega de ferro, falou-lhe: -
Sinhá, olhe como está esta perna; está toda ferida. Ferro pesa muito,
fale com sinhô para tirar. E
mostrava o tornozelo ulcerado pela pega, fétido, envolto em trapos muito
sujos. -
Mas que fez você para estar sofrendo isto? -
Pecado, sinhá; fugi. -
Era maltratado, estava com medo de apanhar? -
Nada, sinhá: negro é mesmo bicho ruim, às vezes perde a cabeça. -
Se você me promete não fugir mais, eu vou pedir ao coronel que mande
tirar o ferro. -
Promete, sinhá: negro promete, palavra de Deus! Deixa estar. São
Benedito há de dar a sinhá um marido bonito como sinhá mesmo. E
deu uma grande risada alvar. Lenita
gostou do bom desejo e do cumprimento e sorriu-se. De
tarde falou ao coronel - que aquilo não tinha razão de ser, que era
barbaridade, uma vergonha, uma coisa sem nome, que mandasse tirar o ferro. -
Ai, filha! você não entende deste riscado. Qual barbaridade, nem qual
carapuça! Neste mundo não existe coisa alguma sem sua razão de ser.
Estas filantropias, estas jeremiadas modernas de abolição, de não sei
que diabo de igualdade, são patranhas, são cantigas. É chover no
molhado - preto precisa de couro e ferro como precisa de angu e baeta.
Havemos de ver no que há de parar a lavoura quando esta gente não tiver
no eito, a tirar-lhe cócegas, uma boa guasca na
ponta de um pau,
manobrada por um feitor destorcido. Não é porque eu seja maligno que
digo e faço estas coisas; eu até tenho fama de bom. É que sou lavrador,
e sei o nome aos bois. Enfim, você pede, eu vou mandar tirar o ferro. Mas
são favas contadas - ferro tirado, preto no mato. A Carne, cap. 5. O
escravo, a quem ela fizera tirar o ferro do pé, fugira de fato, como
tinha previsto o coronel: um dia voltou preso, amarrado com uma corda
pelos lagartos dos braços, trazido por dois caboclos.
Que
não havia remédio, disse o coronel, que dessa feita o negro tinha de
tomar uma funda mestra por ter abusado do apadrinhamento de Lenita, que ia
tomar a pôr-lhe o ferro, e que não o tiraria mais nem à mão de Deus
Padre. A Carne, cap. 6. |
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III |
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Dominava no ambiente aroma suave, sacarino, cortando espaços por uma lufada tépida de cheiro humano áspero, de catinga sufocante exalada dos negros em suor.
A
Carne, cap. 5. |
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IV |
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Almoçou
com prazer, tocou piano, deu um grande passeio a pé, jantou, só pensou
em Manuel Barbosa duas ou três vezes, isso mesmo com menos indignação,
sem ressentimento, indiferente quase, achando-se apenas ridícula a si própria
por tê-lo arvorado um herói durante um longo acesso de extravagância
histérica. Era um pobre diabo, caipirão, velhusco, achacoso. Caçava por
caçar, sem intuição poética, bestialmente, como qualquer caboclo.
Bebia pinga. Verdade era que tinha estado na Europa, mas ter estado na
Europa não muda a constituição a ninguém. Ele era o que ela devia
esperar que ele fosse, um tipo muito sem imponência, reles, abaixo até
da craveira comum.
A Carne, cap. 8. |
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V |
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Negros
e negras formavam um vasto círculo agitavam-se, permeavam,
compassadamente, rufavam adufes aqui e ali. Um figurante, no meio,
saltava, volteava, baixava-se, erguia-se, retorcia os braços, contorcia o
pescoço, rebolia os quadris, sapateava em um frenesi indescritível, com
uma tal prodigalidade de movimentos, com um tal desperdício de ação
nervosa e muscular, que teria estafado um homem branco em menos de cinco
minutos. A Carne, cap. 10. |
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VI |
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A
garrafa de aguardente andava de mão em mão: não havia copos; bebiam
pelo gargalo. Ao
cheiro de terra pisada, de cachaça, de sarro de pito, sobrelevava
dominante um cheiro humano áspero, aliáceo, um odor almiscarado forte,
uma catinga africana, indefinível, que doía ao olfato, que cortava os
nervos, que entontecia o cérebro, sufocante, insuportável. Enquanto
se dançava no terreiro, Joaquim Cambinda, escravo octogenário, inútil
para o trabalho, estava sozinho, sentado em um cepo, ao pé de um fogo de
lenha de perova, no paiol velho abandonado, que a rogo seu lhe fora
concedido para morada. Era
horroroso esse preto: calvo, beiçudo, maxilares enormes, com as escleróticas
amarelas, raiadas de laivos sangüíneos, a destacarem-se na pele muito
preta. Curvado pela idade, tardo, trôpego, quando se erguia e, envolto na
sua coberta de lã parda, dava alguns passos, similhava uma hiena fusca,
vagarosa, covarde, feroz, repelente. Tinha as mãos secas, aduncas; os
dedos dos pés reviravam-se-lhe para dentro, desunhados, medonhos. A Carne, cap. 10. |
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VII |
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Tinha
ido pedir à ciência superioridade sobre as outras mulheres; e na árvore
da ciência encontrara um verme que a poluíra. Quisera
voar de surto, remontar-se às nuvens, mas a carne a prendera à terra, e
ela tombara, submetera-se; tombara como a negra boçal do capão,
submetera-se como a vaca mansa da campina. Revoltada contra a metafísica
social, pusera-se fora da lei da sociedade, e a consciência castigava-a,
dando-lhe testemunho de quanto ela descera abaixo do nível comum da mesma
sociedade. A Carne, cap. 17. |
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VIII |
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Entregara-o
de mãos atadas aos caprichos de uma mulher histérica que se lhe
oferecera, que se lhe dera, como se teria oferecido, como se teria dado a
qualquer outro, a um negro, a um escravo de roça, não por amor psíquico,
mas para satisfazer a carne faminta... A Carne, cap. 18. |
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Biografia de JÚLIO RIBEIRO |
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Júlio Ribeiro. A Carne. O texto completo pode ser acessado em http://www.biblio.com.br/Templates/JulioRibeiro/acarne.htm |
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