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Auguste Comte |
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A
MULHER - Quanto aos fetichistas, aliás pouco numerosos, seu estado
parece-me, meu pai, por tal forma afastado do nosso que não concebo a
possibilidade de os trazer rapidamente ao nível final do Ocidente.
O
SACERDOTE - Apesar de seu pequeno número, minha filha, eles ocupam, no
centro da África, uma vasta região completamente inacessível ainda à
nossa civilização, que não poderá penetrar aí senão sob o impulso
prolongado do sacerdócio positivo. Nossos dignos missionários acharão
aí o caso mais apropriado para estimular os esforços teóricos e o zelo
prático, propondo-se estender diretamente a religião universal por essas
ingênuas povoações, sem lhes impor nenhuma transição monotéica, nem
mesmo politéica. A possibilidade de semelhante sucesso resulta da
profunda afinidade do positivismo com o fetichismo, que não difere
daquele, quanto ao dogma, senão em confundir a atividade com a vida, e,
quanto ao culto, em adorar os materiais em vez dos produtos.
Em
toda. iniciação humana, espontânea ou dirigida, o fetichismo constitui
o único modo do regime fictício verdadeiramente inevitável, porque ele
surge em uma época em que a espécie e o indivíduo são incapazes de
reflexões quaisquer. Cada uma das duas fases preliminares pode ser
poupada à evolução plenamente sistemática. Se tivéssemos empenho em
preservar nossos filhos do politeísmo, poderíamos consegui-lo
prolongando o estado fetíchico até que, por modificações graduais, ele
fosse terminar no positivismo. Mas este esforço careceria, então, de
oportunidade, sem falar de sua tendência a perturbar o surto natural da
imaginação humana. O caso é muito diverso tratando-se da evolução
coletiva da África central, onde tais transformações comportarão a
mais salutar eficácia, tanto local como universal.
A
MULHER - Só tenho, meu pai, uma última observação a submeter-vos
acerca dessas imensas transformações intelectuais e sociais, que dão
tanto interesse às mais vastas relações humanas, sempre maculadas até
aqui de egoísmo e de empirismo. Sem partilhar de modo algum dos bárbaros
prejuízos dos brancos contra os pretos ouso apenas esperar que a
universalidade da fé positiva não seja indefinidamente estorvada pela
diversidade das raças.
O
SACERDOTE - A verdadeira teoria biológica das raças humanas resulta,
minha filha, da concepção de Blainville, que representa essas diferenças
como variedades devidas ao meio, mas que se tornaram fixas, mesmo
hereditariamente, logo que atingiram sua maior intensidade. Segundo este
princípio, pode-se construir subjetivamente uma doutrina essencialmente
de acordo com as únicas diversidades verificadas pela apreciação
objetiva, que não admite realmente senão três raças distintas, branca,
amarela e preta.
Com
efeito, as únicas diferenças essenciais e duráveis que se podem ter
desenvolvido são as que se referem ao predomínio relativo das três
partes fundamentais do aparelho cerebral, especulativa, ativa e afetiva.
Tais são, portanto, as nossas três raças necessárias, das quais cada
uma é superior às outras duas, ou em inteligência, ou em atividade, ou
em sentimento, como o confirma o conjunto das sãs observações. Esta
apreciação final deve demovê-las de todo desdém mútuo e fazer-lhes
igualmente compreender a eficácia de seu concurso íntimo, para acabar de
constituir o verdadeiro Grande Ser.
Quando
nossos trabalhos houverem saneado uniformemente o planeta humano, estas
distinções orgânicas tenderão a desaparecer, em virtude mesmo de sua
origem natural, e sobretudo mediante dignos casamentos. A combinação
crescente dessas raças nos proporcionará sob a direção sistemática do
sacerdócio universal, o mais precioso de todos os aperfeiçoamentos,
aquele que diz respeito ao conjunto de nossa constituição cerebral,
assim tornada mais apta para pensar, agir e mesmo amar. Auguste Comte, Catecismo Positivista. Tradução de José Arthur Giannotti e Miguel Lemos. 5a. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. (Os Pensadores). p.239, 240. |
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ASSUMIR-SE MESTIÇO É NÃO ABRIR MÃO DE QUALQUER UMA DE NOSSAS VÁRIAS ORIGENS |